
Prepare um canto fechado antes da queima, com janelas e cortinas fechadas e um som contínuo de fundo, e deixe o cão entrar e sair dele quando quiser. Durante os fogos, ofereça petisco ou brincadeira a cada estouro e acolha o cão se ele procurar você: consolar não reforça o medo. Não prenda, não castigue e não leve o cão para "se acostumar" perto da queima. Se ele recusa até o petisco preferido, tenta fugir ou demora dias para voltar ao normal, converse com o veterinário antes da próxima data: existe tratamento com medicação, e só ele pode prescrever.
A resposta
Prepare o ambiente antes, fique por perto e transforme cada estouro em sinal de coisa boa. Na prática: um canto fechado e conhecido, janelas e cortinas fechadas, um som contínuo para abafar o barulho, petisco ou brincadeira logo depois de cada estouro, e colo se o cão pedir. O que piora: castigo, prender o cão em pânico e expô-lo de propósito à queima para ele "se acostumar".
O problema é comum. Uma revisão de 2023 da pesquisadora Stefanie Riemer, da Universidade de Medicina Veterinária de Viena, chama o medo de barulho de o problema de comportamento mais frequente em cães, e os estudos que ela reúne apontam entre um quarto e metade dos cães afetados. Fogos de artifício são o gatilho mais citado, seguidos de trovão e tiro.
Como saber se é medo
Alguns sinais são fáceis de ver: tremer, se esconder, ofegar, babar, andar de um lado para o outro, tentar fugir, fazer xixi ou cocô fora do lugar, destruir porta ou móvel. A diretriz de comportamento de 2015 da AAHA, a associação americana de hospitais veterinários, descreve a fobia de barulho exatamente assim: esconder, tremer, destruir, salivar e ofegar em resposta a um som específico.
Outros passam despercebidos. Num estudo de 2020 que analisou vídeos de cães no Réveillon e comparou com uma noite comum, o sinal mais ligado aos fogos foi a orelha virada para trás, medida na base. Andar mais e ofegar mais vieram em seguida. A maioria dos cães filmados não latiu, não ganiu e não se escondeu, e lamber o focinho ou bocejar não aumentou. Ou seja: o cão quieto, de orelha para trás e ofegando no sofá também pode estar com medo.
Muita gente não chama isso de medo. Num levantamento do Reino Unido publicado em 2013 por Emily Blackwell, John Bradshaw e Rachel Casey, só um quarto dos tutores disse que o cão tinha medo de barulho. Quando os pesquisadores entrevistaram 383 deles e perguntaram por comportamento, quase metade descreveu ao menos um sinal típico de medo. Menos de um terço tinha procurado orientação profissional.
O Merck Veterinary Manual separa os termos. Medo é a resposta a uma ameaça presente; ansiedade, a apreensão por uma ameaça que ainda não chegou; fobia, o medo desproporcional e persistente, que leva ao pânico.
Antes da queima
Quase tudo que funciona começa antes do primeiro estouro.
- Um esconderijo que ele já conhece. A revisão de 2023 sugere uma caixa de transporte confortável, coberta por um pano, associada a coisas boas bem antes da data. O Merck acrescenta: leve o cão para lá antes de o barulho começar. A porta fica aberta, porque refúgio é onde o cão entra e sai quando quiser.
- Janelas, cortinas e persianas fechadas. Um cômodo sem janela também serve. O clarão faz parte do susto.
- Um som para abafar. Pesquisa com pessoas mostra que o som que mascara funciona melhor quando se parece com o que ele cobre, e por isso a revisão sugere ventilador alto ou batida de tambor repetitiva para fogos e trovão.
- Portas e portão fechados, coleira com identificação. Tentar fugir é um dos sinais descritos. Num levantamento da Nova Zelândia de 2010, com 3.527 cães e gatos, 6% dos animais com informação disponível já tinham se machucado por causa de fogos.
- Passeio e xixi antes de escurecer. Não deixe para levar o cão à rua na hora da queima.
Durante os fogos
A cada estouro, uma coisa boa. Petisco, um brinquedo, uma brincadeira curta, um comando fácil que ele já sabe e que rende prêmio. Riemer chama isso de contracondicionamento improvisado: o estouro passa a anunciar algo bom. Num estudo dela com mais de 1.200 tutores, publicado em 2020, oferecer comida e brincadeira durante os fogos foi a única forma de manejo associada à melhora do medo com o tempo. Mais de 70% dos que usaram esse contracondicionamento disseram que funcionou. São respostas dos próprios tutores, não um ensaio controlado, mas o resultado se manteve quando a autora excluiu da análise os cães que recusavam comida.
Se ele recusa até o petisco preferido, o medo está alto. A revisão lembra que recusar comida é sinal de estresse intenso, e é aí que o tratamento com medicação pode ser indicado. Não force.
Fique calmo e por perto. Os cães reagem à emoção humana, e a revisão sugere mostrar emoção positiva a cada estouro, em vez de tensão.
Deixe o cão escolher onde ficar. Embaixo da cama, atrás do sofá, no banheiro. Se ele foi para lá, não puxe.
Pode consolar o cachorro com medo?
Pode, se ele procurar você. A ideia de que carinho "recompensa o medo" foi conselho comum por anos, e a revisão de 2023 diz que ignorar o cão que busca contato não é recomendável. Medo é emoção, não um truque aprendido em troca de prêmio, e recompensa não deixa uma emoção pior. Em outras situações de estresse, carinho e conversa reduziram sinais de estresse no comportamento e no corpo do cão.
De onde veio a dúvida: no levantamento da Nova Zelândia, os tutores que consolavam o animal relataram um medo que ficou mais forte e mais longo com o tempo. É uma associação num questionário, e os próprios autores apontam viés de seleção. Uma explicação possível é a ordem inversa: quem tem um cão mais apavorado consola mais. No estudo maior de Riemer, carinho e conversa durante os fogos não tiveram relação nem com piora nem com melhora.
O limite é o do próprio cão. Carinho que ele não pediu, segurar à força ou tirar do esconderijo pode aumentar o estresse.
O que não fazer
- Castigar ou brigar. O Merck orienta evitar punição em problemas de medo, porque ela aumenta a ansiedade e pode criar medo do próprio tutor e do lugar.
- Levar o cão para perto da queima para ele se acostumar. Isso tem nome, inundação, e a diretriz da AAHA e o Merck dizem para evitar. Exposto ao estímulo na intensidade que provoca pânico, o cão tende a ficar mais sensível, não menos.
- Prender em lugar fechado e sair. Caixa fechada só é aceitável por pouco tempo e com o cão já habituado a ela, avisa a revisão.
- Dar remédio que sobrou em casa, de gente ou de outro animal. A revisão cita um tranquilizante ainda usado em cães como contraindicado no medo de barulho: ele deixa o cão parado, mas não tira a ansiedade, e há sugestão de que aumente a sensibilidade ao som. Remédio para medo de fogos é com receita e acompanhamento do veterinário.
Calmantes, florais, feromônio e colete: o que dizem os estudos
O retrato é pouco animador para quase tudo que se vende sem receita. No estudo de 2020 de Riemer, a taxa de tutores que viram efeito ficou em 27% para suplementos calmantes, cerca de 31% para homeopatia e óleos essenciais, 33,5% para florais e 35% para fitoterápicos. Para feromônio sintético, 28,8% de 316 tutores. A revisão compara esses números com o efeito placebo: num ensaio no Réveillon, 37% dos tutores cujos cães receberam placebo relataram efeito bom ou excelente. Os estudos com produtos específicos tiveram resultados mistos, e a conclusão da autora é que essas opções, sozinhas, dificilmente dão conta de um medo forte.
O colete de pressão foi o produto sem receita com melhor resultado no mesmo estudo, 44%, e uma revisão sistemática citada por Riemer admite um efeito pequeno possível. Se for testar, acostume o cão a vestir o colete em dias calmos, antes da data, porque vestir uma peça apertada também pode estressar.
Quando é caso de veterinário
Leve o cão ao veterinário, de preferência antes da próxima data previsível, se:
- ele recusa até o petisco preferido durante os fogos;
- tenta fugir, se machuca ou destrói portas e janelas;
- leva mais de um dia para voltar ao normal;
- o medo vem piorando de um ano para o outro;
- o medo começou de repente num cão mais velho.
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Sobre o último ponto: a revisão de 2023 diz que um medo de barulho que aparece pela primeira vez num cão mais velho pode indicar dor. Doenças hormonais, do coração e do pulmão, neurológicas e a disfunção cognitiva também podem agravar o medo. Por isso o exame clínico vem antes de tudo, e o post sobre cuidados com o cachorro idoso ajuda a reconhecer outras mudanças da idade.
Existe tratamento com medicação, e a evidência é melhor que a dos produtos de prateleira. A revisão de Riemer cita ensaios duplo-cegos, com placebo, em que remédios de curto prazo reduziram o medo dos cães durante os fogos de Réveillon. A diretriz da AAHA trata o ansiolítico de uso pontual, dado antes do evento previsto, como primeira linha na fobia de barulho, sempre junto com manejo e treino. Qual remédio, em que dose e com quanta antecedência é decisão do veterinário, e a revisão recomenda testar a resposta do cão antes da data, porque cada animal reage de um jeito.
Para a próxima vez: treino que funciona
Fogos voltam todo ano, e o treino feito nos meses calmos é o que muda o quadro.
Contracondicionamento com barulho real. É o mesmo princípio da noite dos fogos levado para o dia a dia: todo barulho alto e inesperado (uma porta batendo, uma panela no chão) vem seguido de petisco. Foi a estratégia com mais tutores relatando sucesso no estudo de 2020.
Treino de relaxamento. O cão aprende a relaxar com um sinal: uma palavra, uma manta usada só nas sessões de massagem, um som. Depois, o sinal ajuda a baixar a agitação. Teve 69% de relato de sucesso no mesmo estudo.
Gravações de fogos, com cuidado. A ideia é tocar o som baixo o bastante para o cão não reagir, com petisco junto, e subir aos poucos. O Merck pede para variar o volume em vez de aumentar sempre, e avisa que, como fogos envolvem clarão, cheiro e vibração, a gravação sozinha raramente resolve. No estudo de 2020, 54,5% dos tutores relataram sucesso com esse método.
O medo também pode melhorar. Riemer deu ao estudo de 2019, com 1.225 cães, o título "Not a one-way road" (não é uma rua de mão única): tutores relataram tanto melhora quanto piora ao longo dos anos. Cerca de três em cada quatro cães com medo estavam bem na manhã seguinte à queima, mas em pouco mais de 3% a recuperação levou semanas ou meses.
Cão recém-adotado e vira-lata
O medo de fogos costuma começar cedo. No estudo de 2019, 45% dos cães com medo o desenvolveram antes de 1 ano de idade, e casos novos depois dos 6 anos foram raros. Se você adotou um adulto, ele pode já chegar com o medo, e você só descobre na primeira queima.
Cães sem raça definida apareceram entre os mais afetados nos estudos do Reino Unido, da Finlândia e no de Riemer. Isso não quer dizer que o vira-lata nasce mais medroso. A hipótese levantada por Riemer é outra: esses cães vêm mais de abrigos e da rua e podem ter tido menos experiências durante a socialização. Em grandes levantamentos, o número de experiências nessa fase foi, depois da idade, o fator mais ligado ao medo de fogos e trovão. No estudo de 2019, cães adotados já adultos de abrigos tiveram as notas mais altas de sofrimento nos fogos.
A boa notícia vem do mesmo estudo. Treinar o cão para associar barulho a coisa boa antes que ele mostre medo teve efeito protetor grande. Numa escala de 1 (bem-estar sem prejuízo nos fogos) a 5 (muito prejudicado), a nota mediana foi 1 para cães treinados quando filhotes, 2 para os treinados já adultos e 4 para os que não tiveram treino preventivo. Comece nas primeiras semanas, junto com a rotina descrita no guia dos primeiros dias do animal adotado, e não espere o Réveillon, as festas juninas ou o próximo jogo decisivo para descobrir como ele reage.
A lei dos fogos com estampido
Depende de onde você mora: a regra muda de cidade para cidade, e cada lei tem seu próprio texto.
Na cidade de São Paulo, a Lei municipal 16.897, de 23 de maio de 2018, proíbe manusear, usar, queimar e soltar fogos de estampido e qualquer artefato pirotécnico de efeito sonoro ruidoso, em recintos fechados ou abertos, áreas públicas e locais privados. Ficam liberados os fogos de vista, que produzem efeito visual sem estampido ou com barulho de baixa intensidade. A multa prevista é de R$ 2.000, dobrada se a infração se repetir em menos de 30 dias, com correção anual pelo IPCA. O catálogo de legislação da Prefeitura registra que o Supremo Tribunal Federal julgou improcedente a ação contra a lei (ADPF 567), em decisão definitiva.
Para saber a regra da sua cidade, procure no site da câmara municipal ou da prefeitura. Mesmo onde há proibição, o preparo da casa continua valendo.
Perguntas frequentes
Cachorro com medo de trovão é o mesmo problema? Com frequência, andam juntos. No levantamento do Reino Unido, medo de fogos, de tiro e de trovão apareceram juntos com frequência, o que sugere que o medo de um barulho alto se espalha para os outros. O trovão tem uma dificuldade extra: não tem data marcada, e o cão pode passar a reagir à chuva, ao vento e à mudança de pressão antes do primeiro estrondo.
Algodão no ouvido ajuda? Não achamos estudo que teste algodão. O Merck cita protetor de ouvido e fone com cancelamento de ruído entre as medidas possíveis, sem detalhar como usar.
Medo de fogos e ansiedade de separação andam juntos? Os estudos divergem. No Reino Unido e no estudo de Riemer, o medo de fogos quase não apareceu junto com outros problemas de comportamento. A diretriz da AAHA diz que outros quadros de ansiedade costumam conviver com a fobia de barulho e pede triagem, porque um piora o outro. Se o seu cão também sofre quando fica sozinho, leia o post sobre ansiedade de separação em cachorro.
Existe dado do Brasil? Não encontramos estudo brasileiro revisado por pares sobre quantos cães têm medo de fogos. Os números deste texto vêm do Reino Unido, da Finlândia, da Nova Zelândia e de levantamentos on-line internacionais.
Fontes
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