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Cães

Cachorro ou gato para apartamento? A rotina pesa mais que a metragem

Dois estudos brasileiros não ligaram o tamanho da casa ao sofrimento do animal sozinho, e ligaram a rotina. O que cão e gato cobram do apartamento, e o que o condomínio pode exigir.

Qual escolher?Adoção e primeiros dias
10 min de leitura
Cão preto e branco deitado sobre uma manta no sofá, com um gato tigrado cinza sentado no parapeito da janela com tela, ao fundo
Os dois no apartamento. Imagem ilustrativa gerada com IA: não retrata um animal, uma pessoa ou um caso real.
Resposta curta

Cachorro combina com quem garante passeio todo dia e não vai deixar o cão sozinho como rotina da semana. Gato combina com quem instala tela, mantém duas caixas de areia e brinca com ele dentro de casa, sabendo que gato também sofre quando fica muito sozinho. Nos dois estudos brasileiros que olharam para isso, morar em apartamento ou ter pouco espaço não se associou ao problema de separação. O que apareceu foi a rotina: a ausência frequente no cão, a falta de brinquedo e de outro animal no gato. E, pelo STJ, a convenção do condomínio não pode proibir animal de forma genérica dentro do apartamento.

A resposta

Cachorro serve para quem tem alguém em casa que vai passear com ele todos os dias e não vai deixá-lo sozinho como rotina da semana. Gato serve para quem aceita tela nas janelas, duas caixas de areia e brincadeira diária dentro de casa, e sabe que gato deixado muito sozinho também sofre. A metragem vem depois: nos dois estudos brasileiros que mediram isso, o espaço não se associou ao problema de separação. A ausência frequente pesou no cão, e a falta de brinquedo e de companhia animal pesou no gato.

Comparação lado a lado

Para decidir entre cachorro ou gato para apartamento, estes critérios pesam mais que a planta do imóvel. Os números vêm de estudos pequenos, feitos em lugares e com réguas diferentes, e cada linha está explicada nas seções abaixo.

Comparação lado a lado

Critério

Cachorro

Gato

Saída de casa

Passeio todo dia

Nenhuma: 96,2% viviam só dentro, num levantamento brasileiro

O que o apartamento precisa ter

O espaço não pesou no estudo de Niterói

Tela, duas caixas de areia, lugar alto e vista para fora

Tarefa de todo dia

Passeio

Brincadeira de caça e caixa limpa ao menos uma vez

Ficar sozinho com frequência

Mais sinais de separação em Niterói

Tendência em Juiz de Fora, sem significância estatística

Outro animal em casa

Não fez diferença em Niterói

Não ter outro animal se associou a sinais

Barulho que chega ao vizinho

Vocalização foi o sinal mais frequente

Miado excessivo em 19 de 30 gatos com sinais

Risco de ficar parado

Menos exercício, mais medo de outros cães (Finlândia)

Obesidade relatada em 5,6% dos gatos de dentro e 3,2% dos que saem

Quando escolher cachorro

Escolha cachorro se o passeio diário já cabe na sua semana, inclusive no dia de chuva. O único estudo brasileiro que encontramos sobre cão de apartamento acompanhou 93 cães de Icaraí, em Niterói (Soares e colegas, 2010). Entre os que passeavam todo dia, 52,1% tinham sinais de ansiedade de separação. Entre os que não passeavam todo dia, 73,7%.

O mesmo estudo não achou relação entre os sinais e a restrição de espaço dentro do apartamento. A comparação, porém, teve pouco com que trabalhar: 82,8% dos cães andavam pela casa inteira.

O que pesou foi a frequência da ausência. Dos cães deixados sozinhos de algumas vezes por semana a mais de uma vez por dia, 27 de 39 tinham sinais. Dos deixados sozinhos de vez em quando, raramente ou nunca, 25 de 54. Antes de usar esses números, olhe de onde saíram: tutores abordados em seis pet shops com banho e tosa de um mesmo bairro, entre julho e novembro de 2006, 74,2% deles com curso superior, e nenhum grupo de comparação morando em casa. O estudo mostra um sinal, não a taxa do Brasil.

Para os minutos de passeio, não encontramos diretriz veterinária com número. Um estudo finlandês com cerca de 6.000 cães (Puurunen e colegas, 2020) comparou faixas: quem fazia menos de 1 hora de exercício por dia tinha 1,58 vez a chance de ter medo de outros cães de quem fazia mais de 3 horas. As 3 horas são uma categoria de comparação. Ninguém ali recomendou esse tempo.

Quem adota em home office precisa pensar no dia em que voltar ao escritório. Um estudo britânico com 1.807 cães (Harvey e colegas, 2022) seguiu tutores durante a pandemia. Quando as restrições afrouxaram, em outubro de 2020, 9,9% dos cães que antes não tinham sinais de separação e voltaram a ficar sozinhos passaram a ter, e o risco foi maior entre os cães cujo tempo sozinho mais tinha caído no lockdown. Os autores sugerem, depois de uma mudança brusca, aumentar aos poucos o tempo que o cão passa sozinho. O mesmo estudo traz uma boa notícia: 55,7% dos cães que já tinham sinais e continuavam sendo deixados sozinhos em outubro não mostravam mais nenhum.

O latido e o prédio

Em Niterói, a vocalização excessiva (latido, uivo, choro) foi o sinal mais frequente. Em prédio, esse sinal tem consequência legal. O art. 42 da Lei das Contravenções Penais pune quem perturba o sossego alheio "provocando ou não procurando impedir barulho produzido por animal de que tem a guarda", com multa ou prisão simples de 15 dias a 3 meses. O texto não fala em horário. O Código Civil, no art. 1.336, proíbe usar a unidade de modo prejudicial ao sossego e permite que a convenção cobre multa de até cinco vezes a taxa mensal de condomínio.

Você responde por procurar impedir, e o cão que late quando fica sozinho late justamente quando você não está ouvindo. Nas primeiras semanas, vale perguntar aos vizinhos de parede.

A área comum

Todo passeio passa pelo hall e pelo elevador, e ali o condomínio pode pôr regra. Em fevereiro de 2025, a 1ª Turma Recursal do TJDFT derrubou a proibição de animais de um prédio, mas decidiu que o cão só circula pelas áreas comuns no colo. O morador descreveu o animal como de pequeno porte. Não encontramos decisão sobre cão grande.

Quando escolher gato

Escolha gato se você aceita que ele vai passar a vida inteira dentro do apartamento, e que o trabalho que a rua faria passa a ser seu. Num levantamento com 16.302 tutores brasileiros (Machado e colegas, 2020, estudo chamado Beloved Whiskers), 5.338 dos 5.551 que moravam em apartamento criavam o gato só dentro de casa: 96,2%.

As diretrizes da AAFP e da ISFM, as associações americana e internacional de medicina felina, dizem o que esse gato precisa. No apartamento, a lista vira isto:

  • Duas caixas de areia, mesmo com um gato só, em lugares separados. Cada uma retangular, com cerca de 1,5 vez o comprimento do gato, do focinho à base da cauda, com a sujeira retirada pelo menos uma vez por dia. A regra do "número de gatos mais um" vale para casa com mais de um gato, e a própria diretriz a chama de costume, não de exigência.
  • Recursos em dobro e separados: no mínimo dois lugares de descanso, dois de comida e dois de banheiro, com a água longe da comida.
  • Um lugar alto e um esconderijo. Para o gato, lugar seguro costuma ser alto. Uma caixa de papelão deitada de lado já serve de abrigo.
  • Vista para fora em pelo menos um dos lugares de descanso. No apartamento, isso quer dizer janela, e janela pede a tela certa para gato.
  • Caça de mentira: brincadeira e comida que imitem a sequência de perseguir e capturar. A diretriz mostra um comedouro caseiro feito com rolos de papel higiênico.
  • Um lugar para arranhar, separado dos outros recursos. A diretriz trata o arranhar como marcação, um comportamento normal do gato.

A diretriz de 2014 cita um estudo em que gatos adultos preferiram uma caixa de 86 por 39 centímetros a uma menor. É uma preferência medida, não uma medida obrigatória, mas mostra que duas caixas em cômodos diferentes ocupam chão, e esse chão precisa existir antes da adoção.

No Beloved Whiskers, o gato de dentro teve mais obesidade relatada (5,6% contra 3,2%) e mais comportamento destrutivo relatado (17,2% contra 11,0%) que o gato com acesso à rua. É associação, num questionário online distribuído por redes sociais. Os próprios autores lembram os riscos do gato que sai: doença infecciosa, atropelamento, briga e maus-tratos. O dado pede enriquecimento e controle de peso, e o escore de condição corporal ajuda a acompanhar. Abrir a porta não é a conclusão.

O que não muda a decisão

"Apartamento pequeno não serve para cachorro"

Nenhum dos dois estudos brasileiros sustenta isso. Em Niterói, a restrição de espaço não se associou à ansiedade de separação. Em Juiz de Fora, num estudo com 223 gatos (de Souza Machado e colegas, 2020), 53,3% dos que tinham sinais de separação moravam em apartamento, contra 41,4% dos que não tinham, diferença sem significância estatística (p=0,24). Os estudos também não provam que o espaço é indiferente. Só mostram que, onde alguém mediu, a rotina apareceu e a metragem não.

"Cachorro pequeno é o cachorro de apartamento"

Dois estudos grandes sobre porte e comportamento dizem o contrário. Numa análise de 8.301 cães de 49 raças (McGreevy e colegas, 2013), quanto menor a altura média da raça, mais problemas ligados à separação, mais xixi quando o cão fica sozinho e mais medo. Os autores levantam a hipótese de que se subestima quanto exercício o cão pequeno precisa. No estudo finlandês, cão pequeno teve 3,29 vezes a chance de ter medo de outros cães que cão grande.

São médias de raça, e os finlandeses tiraram os vira-latas da análise de porte. No vira-lata filhote há um problema anterior: ninguém sabe o tamanho que ele vai ter, como mostra o guia sobre porte do filhote vira-lata.

"Gato é independente e fica bem sozinho"

Em Juiz de Fora, 13,45% dos gatos tinham sinais compatíveis com problema de separação. Nesse grupo de 30, 20 destruíam coisas, 19 miavam em excesso e 18 faziam xixi fora do lugar. No teste estatístico, os sinais se associaram a não ter brinquedo e a não ter outro animal em casa. Ficar sozinho de 5 a 7 vezes por semana e por mais de 2 horas por dia apareceu junto dos sinais na análise exploratória, mas sem significância no teste (p=0,09 para a frequência). O questionário ainda precisa de validação, avisam os autores. Mesmo assim, o gato não é o animal que dispensa companhia.

"Um segundo animal resolve a solidão"

Para o cão de Niterói, não resolveu: os sinais não se associaram ao número de animais da casa, e os autores chamam a ideia de noção popular não comprovada. No gato de Juiz de Fora, não ter outro animal se associou aos sinais, mas o estudo não testou o que acontece quando se adota um segundo gato. E cada gato a mais mexe na conta de caixas de areia.

"O condomínio pode proibir animal"

A convenção não pode proibir de forma genérica. O STJ decidiu isso em 14 de maio de 2019, no REsp 1.783.076, por unanimidade na Terceira Turma, num caso vindo do Distrito Federal. O relator separou três situações: a convenção que não trata do assunto, e aí o morador pode ter o animal respeitando o sossego, a segurança e a boa vizinhança; a que proíbe só o animal que incomoda, que é legal; e a que proíbe animal de qualquer espécie, que pode ser desarrazoada e deve ser afastada quando não tem fundamento legítimo. A decisão vale para dentro do apartamento. A área comum segue com regras próprias, como mostra o caso do colo.

"Antes das 22h o cachorro pode latir"

Nenhum horário aparece na lei federal. Horário de silêncio vem de lei municipal ou do regimento do prédio. O art. 42 da Lei das Contravenções Penais fala só em não procurar impedir o barulho.

Perguntas frequentes

Moro de aluguel. O que vale para mim?

A Lei do Inquilinato não menciona animal. Ela obriga o inquilino a cumprir a convenção e o regimento interno (art. 23, X), e a Lei do Condomínio estende as obrigações da unidade a quem a ocupa "a qualquer título" (art. 20). A decisão do STJ foi sobre convenção de condomínio, não sobre contrato de locação. Leia o contrato antes de adotar.

Já existe lei federal sobre animal em condomínio?

Ainda não. O PL 61/2019, que proíbe convenção e regimento de restringir a permanência de animais domésticos nas unidades, está pronto para pauta no Plenário da Câmara, com urgência aprovada em 21 de outubro de 2025. Até a data deste texto, não foi votado.

O condomínio pode proibir a tela de proteção?

O Código Civil proíbe alterar a forma e a cor da fachada (art. 1.336, III). Não encontramos decisão judicial sobre tela para gato. Antes de instalar, consulte o regimento sobre cor e padrão de instalação.

Na cidade, as famílias têm mais cão ou mais gato?

Mais cão. Pela Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, em 2019, 43,3% dos domicílios urbanos tinham cachorro e 16,6% tinham gato. O IBGE separa só zona urbana e rural. Não existe número oficial de animais por apartamento, e quem diz que o gato cresce porque o brasileiro mora em apartamento está deduzindo, sem medir.

O que fazer se ele sofre quando fica sozinho?

Latido, uivo, destruição ou xixi fora do lugar que se repetem quando o animal fica sozinho são motivo de consulta, não de remédio por conta própria. No gato, xixi fora da caixa pede exame antes de ser chamado de comportamento: a diretriz de 2014 lista cálculo urinário, doença renal crônica, infecção urinária, diabetes, hipertireoidismo e artrite entre as causas a descartar. Se o sinal persiste, procure um veterinário perto de você.

Fontes

  1. Soares GM, Telhado JP, Paixão RL. Estudo exploratório da síndrome de ansiedade de separação em cães de apartamento. Ciência Rural, 2010. https://doi.org/10.1590/S0103-84782010000300008
  2. de Souza Machado D, Oliveira PMB, Machado JC, Ceballos MC, Sant'Anna AC. Identification of separation-related problems in domestic cats: a questionnaire survey. PLoS ONE, 2020. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0230999
  3. Machado JC, Gonçalves LS, Vicentini RR, Ceballos MC, Sant'Anna AC. Beloved Whiskers: management type, care practices and connections to welfare in domestic cats. Animals, 2020. https://doi.org/10.3390/ani10122308
  4. Ellis SLH, Rodan I, Carney HC, Heath S, Rochlitz I, Shearburn LD, Sundahl E, Westropp JL. AAFP and ISFM Feline Environmental Needs Guidelines. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2013. https://doi.org/10.1177/1098612X13477537
  5. Carney HC, Sadek TP, Curtis TM, Halls V, Heath S, Hutchison P, Mundschenk K, e colaboradores. AAFP and ISFM Guidelines for Diagnosing and Solving House-Soiling Behavior in Cats. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2014. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11148882/
  6. Puurunen J, Hakanen E, Salonen MK, Mikkola S, Sulkama S, Araujo C, Lohi H. Inadequate socialisation, inactivity, and urban living environment are associated with social fearfulness in pet dogs. Scientific Reports, 2020. https://doi.org/10.1038/s41598-020-60546-w
  7. McGreevy PD, Georgevsky D, Carrasco J, Valenzuela M, Duffy DL, Serpell JA. Dog behavior co-varies with height, bodyweight and skull shape. PLoS ONE, 2013. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0080529
  8. Harvey ND, Christley RM, Giragosian K, Mead R, Murray JK, Samet L, e colaboradores. Impact of changes in time left alone on separation-related behaviour in UK pet dogs. Animals, 2022. https://doi.org/10.3390/ani12040482
  9. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1.783.076-DF, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 14/05/2019. Informativo de Jurisprudência n. 649, 2019. https://processo.stj.jus.br/jurisprudencia/externo/informativo/?livre=@CNOT%3D017066
  10. Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. Justiça relativiza norma de condomínio que proibia animais em apartamentos (processo 0720752-22.2024.8.07.0007). Notícias TJDFT, 2025. https://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/noticias/2025/fevereiro/justica-relativiza-norma-de-condominio-que-proibia-animais-em-apartamentos
  11. Brasil. Decreto-Lei 3.688, de 3 de outubro de 1941 (Lei das Contravenções Penais), art. 42. Planalto, 1941. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3688.htm
  12. Brasil. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), art. 1.336. Planalto, 2002. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm
  13. Brasil. Lei 4.591, de 16 de dezembro de 1964 (Lei do Condomínio), arts. 19 e 20. Planalto, 1964. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4591.htm
  14. Brasil. Lei 8.245, de 18 de outubro de 1991 (Lei do Inquilinato), art. 23. Planalto, 1991. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8245.htm
  15. Câmara dos Deputados. PL 61/2019, ficha de tramitação, situação consultada em 22 set. 2026. Câmara dos Deputados, 2019. https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2190496
  16. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde 2019, tabelas 4930 (cachorro) e 4931 (gato) por situação do domicílio, consultadas em 22 set. 2026. SIDRA/IBGE, 2019. https://sidra.ibge.gov.br/tabela/4930

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