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Gato pode comer atum? Como petisco sim, como comida não

Atum não é tóxico para gato, mas 28 g de atum em água já passam da cota de petisco de um dia inteiro. Cru, temperado ou no lugar do alimento completo fica de fora.

Pode comer?Alimentação
10 min de leitura
Gato tigrado cinza comendo uma porção pequena de atum desfiado num pires branco, no piso de ladrilho hidráulico da cozinha
Um pouco de atum. Imagem ilustrativa gerada com IA: não retrata um animal, uma pessoa ou um caso real.
Resposta curtaCom cuidado

Pode, com cuidado: atum não está nas listas de alimentos tóxicos da ASPCA nem da WSAVA, e um pouco, de vez em quando, entra como petisco. A porção é menor do que parece, porque 28 g de atum em água têm 36 kcal e o teto de petisco de um gato de 4 kg é de 22 kcal por dia. Cru, temperado com cebola ou alho, ou servido no lugar do alimento completo, não: atum em grande quantidade já causou esteatite, uma inflamação dolorosa da gordura, em gatos.

A resposta

Pode, com cuidado: atum não é tóxico para gato, e um pouco, de vez em quando, entra como petisco. O que pega é a quantidade. Pela WSAVA, um gato de 4 kg tem no máximo 22 kcal por dia para petisco, e 28 g de atum em água já somam 36 kcal. Cru, temperado com cebola ou alho, ou servido todo dia no lugar do alimento completo, não.

Por que

Por que ele pede tanto

Um estudo publicado em 2023 na Chemical Senses propõe que o umami é o gosto que mais atrai o gato. O receptor felino responde a nucleotídeos, como o IMP, e não responde ao glutamato; os aminoácidos só entram como reforço, quando chegam junto com um nucleotídeo. Para o atum, os autores arriscam uma explicação: ele juntaria muito IMP com muita histidina livre, e a dupla amplificaria o sinal no receptor.

É hipótese, e os próprios autores escrevem assim. O estudo foi pago por uma fabricante de alimento para animais, e cinco dos sete autores trabalhavam nela.

Atum não está na lista de tóxicos

O centro de controle de intoxicação animal da ASPCA não põe atum nem peixe entre as comidas de gente que o animal deve evitar. O material de petiscos para gatos da WSAVA, de novembro de 2025, também não: a lista de ingredientes tóxicos dele traz cebola, alho, uva, chocolate, xilitol, álcool, cafeína e laticínio, entre outros. Daí o veredito "com cuidado", e não "não pode". A ferramenta de alimentos que o animal não pode comer não traz o atum pelo mesmo motivo, e traz a cebola e o alho que costumam ir com ele no prato de gente.

Duas frases que circulam sobre o atum de lata não resistem às fontes. A primeira diz que o sódio dá pressão alta no gato. O consenso de hipertensão da ACVIM, de 2018, diz que gato saudável em geral não é sensível ao sal. Para o animal que já tem pressão alta, o painel recomenda evitar sal alto na dieta, porque ele pode fazer mal em alguns quadros, como a doença renal crônica. A lata em óleo tem sal: pela TACO, a tabela brasileira de composição de alimentos, são 362 mg de sódio por 100 g, contra 30 mg no atum fresco. Doze vezes mais. Para gato com doença renal isso pesa, e para o saudável quem resolve é a porção pequena.

A segunda diz que o atum tira vitamina B1. A enzima que destrói a B1, a tiaminase, está no peixe cru, e o Merck Veterinary Manual a localiza no peixe de água doce e em mariscos. O mesmo manual diz que o cozimento destrói a tiaminase e que o calor do enlatamento basta para isso. O atum de lata é cozido. O cru fica de fora por esse e por outros motivos.

O problema começa quando o atum vira comida

O Merck registra que gatos alimentados com grande quantidade de atum enlatado tiveram falta de vitamina E e desenvolveram esteatite, também chamada de doença da gordura amarela: a gordura do corpo inflama e dói. Na edição do manual para tutores, o mecanismo é o excesso de ácidos graxos insaturados, de que o peixe é rico, somado à falta de vitamina E ou de outros antioxidantes. A maior parte dos casos conhecidos era de animais com dieta parcial ou totalmente de peixe.

O registro é antigo. Em 1960, a revista da associação veterinária americana já publicava oito casos em gatos alimentados com atum vermelho enlatado. Em 2003, uma série portuguesa descreveu oito gatos que comiam principalmente peixe gordo, com falta de apetite, prostração, relutância em se mexer e nódulos sob a pele que doíam ao toque. Todos menos um se recuperaram com tratamento e troca da alimentação. Não achamos relato de caso brasileiro, e nenhuma dessas fontes diz a partir de quantas colheres ou de quantas vezes por semana o risco começa.

O cálcio é o outro lado. Dieta feita quase só de carne, fígado, peixe ou frango pode levar à falta de cálcio e ao hiperparatireoidismo nutricional secundário, que desmineraliza o osso, diz o Merck. Em gato, há um caso publicado com atum, por veterinários da Universidade de Milão: o de um filhote de 6 meses alimentado quase só com petisco e atum, contado no guia de comida caseira, dieta crua e petisco.

Mercúrio, na escala certa

Atum acumula mercúrio, e mercúrio faz mal ao gato. A pergunta útil é quanto. Pesquisadores do ITAL, em Campinas, analisaram 30 amostras de atum em lata de cinco marcas, compradas no comércio local em 2015. O maior teor de mercúrio total foi de 261 µg por quilo de atum.

Do lado do gato, o estudo de referência é canadense, de 1976. Grupos de gatos adultos receberam metilmercúrio todos os dias, por até dois anos, puro ou dentro de peixe contaminado, e o efeito foi o mesmo nas duas formas. Com 20 µg por quilo de gato por dia, nada aconteceu em dois anos. Com 46 µg, os sinais neurológicos começaram depois de 60 semanas. Com 176 µg, em 14 semanas: falta de equilíbrio e perda de coordenação.

A conta a seguir é nossa, cruzando os dois estudos. Um gato de 4 kg que come 28 g da lata mais contaminada de Campinas recebe cerca de 1,8 µg de mercúrio por quilo, menos de um décimo da dose que não causou efeito quando dada todo dia por dois anos. Para chegar aos 46 µg, ele precisaria comer uns 700 g daquele atum por dia, por mais de um ano. O risco documentado é o da exposição diária e prolongada.

E ela aparece quando o atum é a dieta. Em 1988, gatos alimentados com comida de gato à base de atum tinham mais mercúrio nos tecidos do que os que comiam comida à base de carne bovina.

Quanto e como oferecer

A cota cabe em poucos gramas

A WSAVA põe o teto de tudo o que não é alimento completo em 10% das calorias do dia, e a conta para o seu gato está no guia quanto alimentar cão e gato. Aqui ela vira atum. O material felino da WSAVA dá 36 kcal em 28 g de atum em lata na água, e a TACO dá 166 kcal por 100 g na conserva em óleo. Dividindo o teto de cada peso pela caloria de cada lata, em conta nossa:

A cota cabe em poucos gramas

Peso do gato

Teto de petisco por dia (WSAVA)

Atum em água que cabe

Atum em óleo que cabe

3 kg

20 kcal

cerca de 16 g

cerca de 12 g

4 kg

22 kcal

cerca de 17 g

cerca de 13 g

5 kg

25 kcal

cerca de 19 g

cerca de 15 g

Três ressalvas. A WSAVA não diz de que lata vem o número do atum em água, e a TACO não tem essa linha nem diz se o óleo foi escorrido: o rótulo da sua lata é a referência melhor. O teto vale para um gato adulto saudável médio, no peso ideal, e a necessidade do seu é conta do veterinário. E a cota é do dia inteiro, então no dia do atum ele ocupa o lugar dos outros petiscos. Nenhuma fonte que lemos fixa quantas vezes por semana.

Cada forma, comparada

Cada forma, comparada

Forma

O que muda

Veredito

Lata em água

36 kcal em 28 g (WSAVA)

Cabe, na porção da tabela

Lata em óleo

166 kcal, 6,0 g de gordura e 362 mg de sódio por 100 g (TACO)

Cabe menos, e pesa para gato com doença renal

Fresco, cozido em água sem tempero

Cru, antes do cozimento, tem 0,9 g de gordura e 30 mg de sódio por 100 g (TACO)

Cabe, cozido por inteiro

Cru, em sashimi ou tartare

Petisco cru de origem animal transmite patógeno (WSAVA)

Não

Com cebola, alho, cebolinha ou muito sal

Cebola e alho danificam o glóbulo vermelho, e o gato é mais sensível que o cão (ASPCA)

Não

Sachê "sabor atum"

Depende da classificação no rótulo

Veja abaixo

O sachê é outra categoria de produto. A Instrução Normativa 30 do Ministério da Agricultura separa o alimento completo, que atende todas as necessidades do animal, do alimento específico, feito para agrado, prêmio ou recompensa. O específico é obrigado a trazer no rótulo a frase "ESTE PRODUTO NÃO SUBSTITUI O ALIMENTO COMPLETO". Com essa frase, o sachê entra na cota de petisco, como o atum de lata. Sem ela, e classificado como completo, pode ser a refeição.

A mesma norma exige "IMAGEM MERAMENTE ILUSTRATIVA" quando o sabor vem de aromatizante ou o produto usa subproduto. A foto de um lombo de atum na embalagem não garante lombo de atum no sachê. A lata do supermercado é alimento de gente e segue outra regra.

Sinais de alerta

Leve o gato ao veterinário se aparecer:

  • Pelo sem brilho, pele seca, gato parado e menos ágil, dor ao toque nas costas ou na barriga, caroços de gordura sob a pele. São os sinais da esteatite no Merck para tutores, que acrescenta que a febre está sempre presente e a falta de apetite é comum. A doença dói, e o tratamento começa pela troca da dieta, decidida pelo veterinário.
  • Recusa da comida de sempre, com dias comendo mal. O gato que espera o atum e deixa o prato cheio corre outro risco. A lipidose hepática, a doença de fígado mais comum no gato, aparece depois de um período de apetite ruim, de poucos dias a semanas, sobretudo no gato obeso, e a troca para uma comida de que ele não gosta está entre os gatilhos que o Merck lista. Não espere ele ceder pela fome.
  • Perda de equilíbrio, andar descoordenado ou convulsão. Foram os sinais do mercúrio em dose alta no estudo canadense, e têm outras causas. Sinal neurológico é consulta, qualquer que seja a suspeita.
  • Atum com cebola, alho ou cebolinha, ou uma porção grande e salgada. Ligue para o veterinário com a quantidade e a hora. Pela ASPCA, o excesso de sal dá sede e xixi aumentados e, conforme a quantidade, vômito, diarreia, tremor e convulsão.
  • Problema de pele que começou depois que o peixe entrou na rotina. Numa revisão de 2016, entre 78 gatos com alergia alimentar de pele confirmada, o peixe foi o culpado em 13, ou 17%, logo atrás da carne bovina, com 14. O percentual é sobre gatos já alérgicos, não sobre todos os gatos.

Gato com doença renal, outra doença crônica ou dieta prescrita precisa de liberação antes da primeira lambida: a WSAVA avisa que, nesses casos, o petisco comum pode não servir. Se você ainda não tem veterinário de confiança, a página de serviços mostra os mais perto de você.

Perguntas frequentes

Posso dar atum cru, em sashimi?

Não. A WSAVA põe o petisco cru de origem animal entre os que transmitem patógeno, e a ASPCA lembra que carne crua pode trazer Salmonella e E. coli, que adoecem o animal e as pessoas da casa. O Merck ainda aponta tiaminase no peixe cru. Cozinhe por inteiro, em água, sem tempero.

Filhote pode comer atum?

A regra do cozido e da porção pequena vale em qualquer idade. A tabela desta página, porém, é para gato adulto, e o filhote ainda está crescendo. O filhote do caso de Milão, que comia quase só petisco e atum, foi encaminhado com osteopenia e cálcio baixo no sangue, e o cálcio voltou ao normal em até 2 meses de alimento completo de crescimento. A porção dele é pergunta para a consulta de vacina.

Meu gato comeu uma lata inteira. E agora?

Os casos de esteatite publicados são de gatos que tinham o peixe como parte grande da dieta, e não de um episódio. Observe vômito e diarreia. Se a lata tinha tempero com cebola ou alho, ou se aparecerem tremor ou sede fora do normal, ligue para o veterinário. Nos dias seguintes, volte à comida de sempre e à cota normal de petisco.

Atum dá hipertireoidismo?

Não há prova disso. Dois estudos caso-controle, feitos por questionário, acharam associação. Nos Estados Unidos, em 2000, com 100 gatos doentes e 163 controles, a preferência por comida de gato enlatada sabor peixe ou fígado e miúdos apareceu ligada a mais risco. Em Londres, em 2009, com 109 casos e 196 controles, dieta com peixe entrou na lista, mas o fator mais forte foi o alimento embalado em lata. Uma revisão crítica de 2015 concluiu que nenhum fator causal foi identificado, e a diretriz da AAFP de 2016 diz que as causas ainda não estão claras.

Fontes

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