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Alimentação

Comida caseira, dieta crua e petisco: risco e suplementação

Por que nenhuma receita analisada em português atendeu a todos os nutrientes, o que a carne crua acrescenta de risco para as pessoas da casa e por que o petisco entra na conta do dia.

Atualizado em setembro de 202620 min de leitura
Dois cães sem raça definida sentados na grama, olhando para cima
Petisco entra na conta de calorias do dia, mesmo quando é só um pedacinho. Foto: Elf, Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Resposta curta

A diferença entre comida caseira e dieta caseira está no cálculo e no suplemento. Nas duas pesquisas brasileiras que analisaram receitas em português, nenhuma das 106 receitas avaliadas em 2017 nem das 100 preparadas e analisadas em laboratório em 2019 atendeu a todos os nutrientes, e mais da metade das de cão não mandava suplementar nada. A dieta crua acrescenta um risco que não é só do animal: em Quebec, cães assintomáticos alimentados com carne crua foram a principal fonte identificada num surto de Salmonella multirresistente com 20 casos humanos, metade deles em bebês. Congelar uma semana resolve o lado parasitário e não resolve o bacteriano. Petisco é comida e deve ficar abaixo de 10% das calorias do dia, mas o rótulo brasileiro não é obrigado a declarar caloria: esse número sai do fabricante, e a necessidade do animal sai do veterinário.

Três coisas com o mesmo apelido

No Brasil, "alimentação natural" e "AN" quase sempre querem dizer comida cozida e formulada para aquele animal. "Dieta crua", "BARF" e "prey model" querem dizer carne crua. Petisco é a terceira categoria, e é a que mais passa despercebida, porque ninguém pensa em pedaço de queijo como refeição.

A confusão não é só de tradução. Uma revisão de 2025 na Frontiers in Veterinary Science mostra que nem em inglês os termos são padronizados: RMBD, BARF e RAP são usados de maneira subjetiva por fabricante, pesquisador, consumidor e órgão regulador, o que atrapalha até a comparação entre estudos.

Isso importa porque o risco é diferente em cada caso. Quem cozinha corre risco de desequilíbrio, não de Salmonella. Quem dá cru corre os dois. Aplicar a literatura de carne crua a quem cozinha é errado, e tratar dieta crua só como problema de nutriente é subestimar.

A receita já vem pronta, e vem errada

Em julho de 2026, pesquisadores da UFU, da UNESP de Jaboticabal e da USP de Pirassununga publicaram na Veterinary and Animal Science o primeiro teste comparativo de dietas formuladas por diferentes modelos de inteligência artificial, com os comandos escritos em português do Brasil: pediram a quatro deles (Manus, ChatGPT, DeepSeek e Gemini) uma dieta completa e equilibrada para um cão adulto de 8 kg. Saíram 11 formulações, comparadas com a referência europeia da FEDIAF de 2024.

Dos nutrientes avaliados, 61,3% ficaram abaixo do mínimo recomendado. Cálcio faltou em 91% das formulações. Cloro não apareceu em nenhuma. Vitamina D ficou baixa em 63,7%, colina em 81,8% e ácido linoleico em 72%. Apenas 18% das formulações incluíram suplemento, e em quantidade insuficiente. Uma das relações entre cálcio e fósforo ficou em 0,04 para 1, quando a faixa recomendada vai de 1 para 1 a 2 para 1.

Falta o detalhe que explica por que ninguém desconfia dessas dietas. Proteína e gordura estavam folgadas em todas as 11: a proteína média das formulações ficou entre 112 e 130 g por 1.000 kcal, contra um mínimo de 52,1. Uma receita com carne boa, arroz e legume parece certa a olho nu justamente porque o que sobra é visível e o que falta não é.

O que as receitas em português entregam

Não é achado importado. Em 2017, no Journal of Nutritional Science, Pedrinelli, Gomes e Carciofi analisaram 106 receitas de comida caseira publicadas em livros, sites e artigos em português. Em 48% delas não dava para saber com precisão quais ingredientes usar nem em que quantidade. Todos os 35 nutrientes investigados apareceram deficientes em pelo menos uma dieta, e 58 receitas (53,7%) não traziam nenhum suplemento vitamínico-mineral, nem uma vitamina ou um mineral isolado.

Em 2019, no Scientific Reports, o grupo da USP fez a versão mais dura do mesmo exercício. Em vez de estimar a composição em software, reuniu 100 receitas de 35 fontes publicadas, comprou os ingredientes de cada uma em três mercados de São Paulo, preparou tudo conforme a instrução da receita e mandou para o laboratório. Nenhuma atendeu aos níveis recomendados de todos os nutrientes avaliados, e mais de 84% tinham três ou mais nutrientes abaixo da recomendação.

Os buracos têm nome e têm espécie. Nas receitas de cão, cálcio ficou abaixo do mínimo do NRC em 69,3% e potássio em 68%. Nas de gato, ferro em 88% e zinco em 68%. Mais da metade das receitas de cão (53,3%) e um terço das de gato (32%) não indicavam suplementação nenhuma de mineral, aminoácido ou vitamina. E nenhuma das 25 receitas para gato indicava suplemento vitamínico-mineral.

Duas ressalvas que os próprios autores fazem, e que mudam a leitura do número. A primeira, no estudo de 2019, é a referência usada: o cálcio ficou abaixo em 69,3% das receitas de cão pelo NRC e em 82,7% pela FEDIAF, e o ferro em 33,3% pelo NRC contra 56% pela FEDIAF, porque as duas referências supõem gastos de energia diferentes. Dizer que "X% das receitas são deficientes" sem dizer contra o que só parece preciso. A segunda é que taurina, ácido araquidônico, EPA, DHA, vitamina K e ácido fólico nem puderam ser avaliados em 2017, por falta de dado nas tabelas de composição de alimentos. O retrato publicado é melhor que o real, não pior.

Há um recorte de gato ainda mais desconfortável, este em inglês e nos Estados Unidos, publicado no JAVMA em 2019. Das 114 receitas de manutenção para gato levantadas em livros e sites, 113 tinham instruções vagas de preparo e 46 não diziam quanto oferecer; só 94 tinham detalhe suficiente para a análise, e dessas nenhuma atendeu a todas as recomendações do NRC. Receitas escritas por quem não era veterinário e receitas sem suplemento foram as que tiveram mais nutrientes abaixo do recomendado. Entre as cinco receitas de autoria veterinária que atenderam a tudo, menos colina, em duas não foi possível confirmar a adequação de taurina.

A vida real não é melhor que a receita publicada. O Dog Aging Project avaliou 1.726 dietas caseiras descritas por tutores ao longo de 2023, com dois codificadores independentes para os ingredientes e cinco para a adequação. O número: só 6% das dietas eram potencialmente completas pelo padrão de manutenção de cão adulto da AAFCO. Carne apareceu em 90% e vegetais em 65%; quase metade dos tutores (45%) acrescentava alguma forma de produto comercial. E, nos levantamentos reunidos por Pedrinelli e colegas, o tutor muda a receita: num estudo, só 13% dos que davam dieta caseira exclusiva seguiam a instrução como recebida; noutro, 15,2% tinham balança para pesar ingrediente e 28,3% admitiram não usar o suplemento prescrito; num terceiro, com 110 tutores, 60% alteraram a dieta e 35,1% não respeitavam as quantidades.

A doença tem nome

Hiperparatireoidismo nutricional secundário. O organismo, sem cálcio suficiente na comida, tira cálcio do osso para manter o sangue em ordem, e o osso fica frágil.

Em 2024, a revista Animals publicou a série de quatro filhotes de porte grande alimentados exclusivamente com carne crua, sem osso e sem suplemento. Chegaram ao hospital com dor aguda e paresia. A radiografia e a tomografia mostraram densidade óssea reduzida nos quatro, e a necropsia de um deles mostrou perda severa de mineralização óssea, com reabsorção cortical e paratireoides difusamente aumentadas. Dois tinham fratura patológica e foram eutanasiados; a necropsia de um deles mostrou reabsorção cortical difusa e paratireoides aumentadas. Os outros dois melhoraram rápido com analgesia e dieta comercial equilibrada. Os autores registram que a doença tinha ficado rara com o acesso à ração comercial equilibrada e voltou com a popularidade da carne crua.

Filhote de porte grande é o grupo de maior risco, e vira-lata filhote é aposta no tamanho: o guia sobre porte explica por que o porte adulto só dá para estimar.

Em gato o quadro aparece por outro caminho. Um relato de 2023 no Journal of Veterinary Diagnostic Investigation descreve um filhote de 6 meses com crescimento ruim, relutância em se mover e deformação do perfil nasal, alimentado quase só com um alimento complementar, que é a categoria de rotulagem do petisco, e com atum. Tinha osteopenia, hipocalcemia e aumento severo de paratormônio e calcitriol. A correção para um alimento completo úmido de crescimento normalizou cálcio e paratormônio em 2 meses. O caso é italiano, e o produto era um alimento complementar, categoria equivalente ao que a norma brasileira chama de alimento específico: aquele que é obrigado a avisar no rótulo que não substitui o alimento completo.

Cru: o risco sai da tigela e fica na casa

"Meu cachorro come cru e nunca ficou doente" tem resposta publicada, e ela não é sobre o cachorro.

Em Quebec, entre 2021 e 2023, uma investigação de vigilância genômica descreveu um agrupamento de 45 isolados de Salmonella 4,[5],12:i:-, 41 deles carregando um plasmídeo de resistência extensiva a antimicrobianos (XDR, no termo do artigo). No mesmo agrupamento estavam 20 casos humanos, 16 bezerros, 3 cães, 1 leitão, 1 alce e 4 isolados de dieta crua para animais de companhia. Bebês foram metade dos casos humanos, e cães alimentados com dieta crua apareceram como a principal fonte identificada de infecção humana; a cepa em si os investigadores rastreiam até fazendas de bezerro. Os casos ficaram internados de 3 a 31 dias, com mediana de 4,5, e nenhum morreu. A conclusão, publicada em 2025 na Communications Medicine, é que cães assintomáticos podem agir como portadores, com opções de tratamento limitadas.

Comprar pronto não é mitigação. Um estudo na Holanda analisou 35 produtos congelados de dieta crua, de 8 marcas: E. coli produtora de ESBL em 28 deles (80%), Listeria monocytogenes em 19 (54%), E. coli O157:H7 em 8 (23%) e Salmonella em 7 (20%). Em parasitas, Sarcocystis em 8 e Toxoplasma gondii em 2 (6%), com a ressalva que a revisão de Davies e colegas faz questão de manter: nesses achados a viabilidade do protozoário não foi estabelecida, e detectar não é o mesmo que encontrar parasita vivo. Davies registra ainda que, no Reino Unido, mais da metade dos isolamentos de sorovares regulados de Salmonella em alimentos para animais vinha de comida crua para pet, e cita um levantamento em que 21% de 166 alimentos crus comerciais congelados deram Salmonella, com as fórmulas de frango cinco vezes mais propensas.

O detalhe mais prático dessa revisão é o da tigela. Num dos estudos que ela compila, Salmonella continuou viável em 100% das tigelas depois de 7 dias, em 79% depois de esfregar com sabão e em 67% depois de um ciclo de lava-louças a 85 graus. Só a imersão em água sanitária, depois de esfregar, derrubou para 42%. A WSAVA acrescenta quem se infecta: criança pequena, gestante, idoso e pessoa imunossuprimida pegam a bactéria manuseando a comida ou as fezes, mesmo sem nunca alimentar o animal.

Congelar resolve verme, não resolve bactéria

Esta é a parte contraintuitiva, e inverter os dois lados é o erro técnico mais comum do assunto.

Contra parasita existe número. A diretriz de controle de vermes da ESCCAP, na 7ª edição de junho de 2025, diz que cozinhar a pelo menos 65 graus no centro da peça por 10 minutos, ou congelar por pelo menos uma semana entre 17 e 20 graus abaixo de zero, previne as infecções parasitárias transmitidas por carne crua. A diretriz também tira consequência disso: cão que recebe carne crua sem aquecimento nem congelamento suficientes deve ser tratado contra tênias a cada 4 semanas, e a dieta crua muda o animal do grupo de baixo risco para o de alto risco na avaliação de vermifugação. Nosso guia de vacinas e vermífugo traz a frequência para os outros estilos de vida.

Contra bactéria não existe esse número, e a WSAVA é literal: congelar, desidratar ou liofilizar não mata todas as bactérias do alimento. Os produtos holandeses em que apareceram ESBL, Listeria e Salmonella eram comerciais e estavam congelados. Quem escreve "congele por uma semana e está seguro" acerta metade, e a metade que erra é a que adoece gente.

A honestidade também está na ESCCAP: o risco real de cão e gato se infectarem por carne crua continua desconhecido, e a única certeza é que é possível e que acontece repetidamente. A mesma diretriz não proíbe a carne crua do ponto de vista parasitário: ela exige o congelamento. E fecha com o que nenhum vermífugo resolve: não há antiparasitário que proteja contra os protozoários transmitidos pelo barf. Os parasitas que ela associa a carne e víscera cruas (Echinococcus granulosus, Taenia, Toxocara, Toxoplasma gondii, Sarcocystis e Neospora caninum) são o retrato europeu. Os limiares de temperatura são físicos e valem em qualquer lugar; a distribuição desses parasitas no Brasil é outra pergunta, e não achamos levantamento nacional equivalente para responder.

Osso

Osso é onde o cru e o petisco se encontram, e é a crença mais difícil de desmontar, porque quem dá osso vê o dente branco.

Segundo a WSAVA, osso é oferecido por prazer e por benefício dentário presumido, mas quebra dente, causa obstrução de esôfago e de intestino e provoca constipação. E dar osso não reduz o risco de placa nem de perda dentária por periodontite. Nos guias de petisco de novembro de 2025, ela trata osso cru e osso cozido como igualmente perigosos, junto de mastigáveis muito duros como chifre e casco.

Davies e colegas explicam a metade que falta. Estudos com cães e gatos ferais ou selvagens mostram menos cálculo dentário, e é por isso que o dente parece mais limpo. A evidência publicada não sustenta menos doença periodontal, e a WSAVA registra que não há diferença de doença de gengiva entre cães que comem carne e osso cru e cães em ração seca ou úmida. Menos tártaro à vista, a mesma gengiva doente, mais dente quebrado.

Petisco é comida

A regra internacional é simples de dizer: petisco fica abaixo de 10% das calorias do dia. Ela aparece nos dois guias de petisco que a WSAVA publicou em 7 de novembro de 2025, um para cão e um para gato, e vem por outro caminho na diretriz de escolha de alimento, que manda tratar produto rotulado para uso "intermitente" ou "complementar" como 10% ou menos da dieta.

A definição de petisco é mais larga do que parece. Entra o agrado, entra o suplemento e entra o alimento usado para dar remédio. Petisco nunca substitui refeição, mastigável pede supervisão, e a lista do que é inseguro inclui osso cru e cozido, chifre, casco, orelha de porco e outros petiscos crus de origem animal, além de sobra de mesa. O que não pode entrar de jeito nenhum está na nossa ferramenta de alimentos que não pode dar.

O que a WSAVA traz de mais útil é a densidade de energia dos alimentos que as pessoas dão de mão beijada:

Petisco é comida

Petisco

Calorias

28 g de queijo cheddar

120 kcal

Orelha de porco seca de 56 g

242 kcal

Osso de couro de 190 g

700 kcal

Para um gato a margem é muito menor, porque o animal é menor: a cota diária de petisco vai de 18 kcal, num gato de 2,5 kg, a 28 kcal, num gato de 7 kg. Aquele pedaço de 28 g de queijo é quatro vezes a cota do dia do gato de 7 kg.

Aqui vem a parte brasileira, que os textos em inglês não têm. A regra dos 10% precisa de dois números: a necessidade de energia do animal, que sai do veterinário, e a caloria do petisco, que no Brasil costuma não estar no rótulo. O art. 13 da Instrução Normativa 30/2009 do MAPA lista as garantias obrigatórias (umidade máxima, proteína bruta mínima, extrato etéreo mínimo, matéria fibrosa máxima, matéria mineral máxima, cálcio máximo e mínimo, fósforo mínimo) e caloria não está lá. A própria WSAVA registra que a informação de caloria só é obrigatória no rótulo dos Estados Unidos. Aplicar os 10% no Brasil, então, costuma exigir um contato com o fabricante, e é honesto dizer isso em vez de repetir a regra como se fosse operável.

A IN 30 dá uma compensação que passa batida. Aqui o petisco é classificado como alimento específico e é obrigado a estampar, no rótulo, "ESTE PRODUTO NÃO SUBSTITUI O ALIMENTO COMPLETO". O produto mastigável é outra categoria, definida em norma como tendo "valor nutricional desprezível", e não carrega essa frase obrigatória. Vale reparar: o osso de couro de 700 kcal da tabela acima é mastigável, ou seja, o item mais calórico da lista é justamente o que a norma dispensa de avisar. A ração terapêutica, chamada de alimento coadjuvante, leva "ALIMENTO SOB ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL". A regra vale para o que é vendido aqui: o caso do filhote de gato aconteceu na Itália, sob outra rotulagem.

Um alerta específico de rótulo, na lista de perguntas frequentes da WSAVA: petisco de jerky e de batata-doce seca está associado a doença renal em relatos de mais de um país e é desencorajado.

Gato não é cão pequeno

Cinco diferenças que mudam a conduta, e nenhuma delas é detalhe.

Taurina é aminoácido essencial para o gato e não para o cão. A síntese felina é bloqueada pela baixa atividade da enzima cisteína-sulfínico-descarboxilase, de modo que o gato depende da comida, e a deficiência causa retinopatia, coagulopatia, retardo de crescimento, prejuízo imunológico e cardiomiopatia dilatada. Um trabalho de 2026 no Journal of Molecular and Cellular Cardiology descreve um gato com uma variante inédita no gene do transportador de taurina, o SLC6A6, ausente em 422 controles, que desenvolveu a doença comendo ração comercial equilibrada e com taurina adequada no produto. É caso único e não desqualifica o rótulo: serve para lembrar que teor certo na embalagem não garante taurina no animal quando o transporte falha.

Cebola é cerca de três a seis vezes mais tóxica para o gato: 5 g por quilo de peso bastam para alterações hematológicas importantes, contra 15 a 30 g por quilo no cão. Cozinhar, secar e processar não eliminam o efeito tóxico do gênero Allium, o que atinge direto quem refoga a comida caseira com cebola e alho.

Uva e passa têm nefrotoxicidade documentada em cão, e não há relato equivalente em gato; macadâmia tem toxicose relatada só em cão. Ausência de relato não é liberação: o próprio guia de petisco da WSAVA para gatos lista uva, passa e groselha entre o que não se dá. A variação em uva é grande o bastante para não existir dose segura conhecida: há cão assintomático depois de cerca de 1 kg de passas e cão morto depois de um punhado, e há caso de insuficiência renal com quatro a cinco uvas num cão de 8,2 kg.

Leite e derivados estão na lista de tóxicos do gato da WSAVA e não estão na do cão, por causa da intolerância à lactose. E dieta vegetariana está fora de discussão para gato, que é carnívoro obrigatório.

Nos dados brasileiros a diferença aparece crua: ferro faltou em 100% das receitas de gato em 2017 e em 88% em 2019, e nenhuma das 25 receitas de gato analisadas em 2019 mandava suplementar vitamina ou mineral.

Suplemento não é tempero

Numa dieta caseira, o suplemento faz parte da fórmula. Não é acabamento, não é opcional e não é o que sobrou de ideia no fim da receita: é o que fecha cálcio, potássio, ferro, zinco, colina e as vitaminas que a comida sozinha não entrega. Nas dietas geradas por inteligência artificial, só 18% traziam suplemento, e em quantidade insuficiente: o cálcio faltou em 91% delas.

Em cima de ração comercial completa a lógica se inverte. Não é necessário adicionar suplemento mineral ou vitamínico a alimento comercial, diz a WSAVA, e fazer isso pode ser arriscado, porque nutriente em excesso é tóxico; a exceção possível é ácido graxo essencial. Dose de suplemento é conversa de consultório, e este guia não passa dose.

Duas limitações fecham a seção. Análise de laboratório mede teor, não aproveitamento: Davies cita o caso de gatos jovens alimentados com coelho inteiro cru que tinha taurina adequada na análise e que ainda assim desenvolveram cardiomiopatia por deficiência de taurina, com morte, depois de alguns meses. E deficiência quase não aparece em exame de rotina, como lembra o grupo da USP, o que significa que hemograma e bioquímica normais não são atestado de dieta equilibrada.

Por isso a WSAVA é direta sobre comida caseira: ela pode ser adequada, mas, por definição, não pode ser testada como um alimento comercial é testado. Daí a recomendação de formulação por veterinário especializado em nutrição e de acompanhamento com exame clínico e sangue duas vezes por ano, ou mais. Receita genérica de livro e de internet, no entendimento da mesma entidade, serve como petisco, não como refeição principal.

Quem faz a conta

A conta tem responsável em lei. A Lei 5.517/1968, que rege o exercício da medicina veterinária, põe no art. 6º, alínea "e", "a responsabilidade pelas fórmulas e preparação de rações para animais e a sua fiscalização" entre as competências do médico-veterinário.

Duas precisões, porque o assunto costuma ser citado errado. Essa atribuição está no art. 6º, que trata do que constitui "ainda" competência, e não no art. 5º, que é o das competências privativas. Formular dieta é competência do veterinário e não é monopólio dele: zootecnista também formula. A Lei 5.550/1968, que regula a profissão, dá ao zootecnista, como atividade privativa, “instituindo ou adotando os processos e regimes, genéticos e alimentares” dos animais domésticos, e a Resolução 1.464/2022 do CFMV admite que o título de especialista em nutrição seja solicitado por zootecnistas. O correto é dizer profissional habilitado. E a Resolução 1.318/2020 do CFMV, que às vezes aparece como prova de que dieta é ato privativo, trata de produtos de uso animal e define prescrição veterinária como a indicação de fármaco, via, posologia e tempo de uso. As palavras alimento e dieta não aparecem nela.

Vale saber onde a norma brasileira termina. Quem regulamenta a Lei 6.198/1974 hoje é o Decreto 12.031/2024, em vigor desde 8 de julho de 2024, que revogou o Anexo do Decreto 6.296/2007. Ele alcança produto destinado à alimentação animal fabricado, fracionado, armazenado ou comercializado por estabelecimento registrado no MAPA. E a panela de casa está fora por escrito, não por inferência: o art. 3º, I, dispensa de registro, inspeção e fiscalização a “preparação doméstica de alimentos para consumo de seus próprios animais de companhia”. Ou seja, não existe no Brasil regra de rotulagem, nível de garantia ou fiscalização que chegue à comida que o tutor faz para o próprio animal. Quem cozinha para VENDER é outra história: aí o estabelecimento entra no escopo do decreto. E, desde a IN 38/2020, alimento completo, alimento específico e produto mastigável são isentos de registro no MAPA, com fórmula e rótulo aprovados pelo responsável técnico do próprio fabricante. "Registrado no MAPA" não é selo de qualidade nutricional, e a embalagem dos isentos diz literalmente que o produto é isento de registro.

Ração sem cereal e coração

O caso mais citado de dieta associada a doença cardíaca merece cuidado nas duas direções.

A FDA abriu em julho de 2018 uma investigação sobre cardiomiopatia dilatada em cães que comiam dietas com muita ervilha, lentilha, outras leguminosas e batata, boa parte rotulada como grain-free. Entre janeiro de 2014 e abril de 2019 recebeu 524 relatos, 560 animais afetados e 119 mortes em cães; 91% dos produtos eram sem cereal e 93% continham ervilha ou lentilha. Em 23 de dezembro de 2022, a agência avisou que não pretende publicar novas atualizações até haver informação científica nova relevante, e escreveu que número de relato de evento adverso, por si só, não estabelece relação de causa. Ela não encerrou a investigação, e não declarou que não deu em nada.

A pesquisa continuou. Uma revisão de novembro de 2025 na Veterinary Sciences conclui que a evidência atual sustenta uma associação entre dieta sem cereal e o desenvolvimento de cardiomiopatia dilatada, que as alterações cardíacas melhoram, às vezes muito, com a troca para uma fórmula com cereal somada ao manejo clínico, e que essa forma nutricional pode ser reversível quando detectada cedo. A revisão separa duas formas associadas à dieta: a por deficiência de taurina, com predisposição de raça, e outra por fator dietético ainda não identificado, com hipóteses em leguminosa, fibra, microbiota intestinal e metabolismo de ácido biliar. A doença afeta cerca de 0,5% da população canina e é a segunda cardiopatia adquirida mais comum.

Associação sim, mecanismo não, causa não provada. Também não existe a lista de marcas que circula em português como "rações proibidas pela FDA": o que a agência publicou foi um gráfico das marcas mais citadas nos relatos, condicionado aos relatos que informaram marca, e nenhuma delas foi proibida nem recolhida.

O que ainda não sabemos

Não temos número confiável de quantos brasileiros dão comida caseira ou dieta crua. O que existe é contexto de fora: um levantamento internacional com mais de 3.000 tutores de 55 países, citado pelo grupo da USP, em que mais de 60% davam comida caseira como parte da dieta, e 12% dos tutores de cão e 6% dos de gato davam exclusivamente. Prevalência no Brasil é lacuna, e preferimos declarar do que preencher.

Também não existe referência oficial brasileira de exigência nutricional de cão e gato equivalente ao NRC americano ou à FEDIAF europeia. A IN 30/2009 exige garantias no rótulo, não estabelece requisito por nutriente. É por isso que todo estudo brasileiro do tema compara contra régua estrangeira.

Metal pesado ficou de fora do corpo deste guia de propósito. O estudo de 2019 achou chumbo acima do limite máximo tolerável em 26,7% das receitas de cão e em 44% das de gato, e mercúrio em 70,7% e 76%, mas é um único estudo com 100 amostras, e a consequência da ingestão crônica desses metais em cão e gato é pouco estudada. O risco com desfecho documentado nas receitas caseiras é o desequilíbrio de cálcio, não o metal.

Se você quer cozinhar

Cozinhar para o animal não é o problema. O problema é a receita sem cálculo, e ela hoje vem pronta da internet e do chatbot.

Se a ideia é comida caseira, o caminho que a evidência sustenta é pedir a formulação a um profissional habilitado, para aquele animal, com o suplemento dentro da fórmula, e voltar ao veterinário com exame e sangue no intervalo que ele indicar. Pesar ingrediente, e não trocar a carne da receita por outra sem avisar quem formulou. Se esse acompanhamento não couber na rotina agora, alimento comercial completo e equilibrado é a escolha segura enquanto não couber, e não é um plano de segunda classe.

Se a escolha é dar cru, o risco que precisa entrar na conversa é o das pessoas da casa, sobretudo se mora ali um bebê, uma gestante, um idoso ou alguém imunossuprimido. Nesse caso, valem o congelamento e o cozimento pelos números da ESCCAP contra parasita, a vermifugação a cada 4 semanas, a tigela lavada e desinfetada, e a consciência de que nada disso zera a bactéria.

E o petisco: pergunte a caloria ao fabricante, peça ao veterinário a necessidade de energia do animal, e trate o resultado como parte do dia, não como extra. Um osso de couro de 190 g tem 700 kcal.

Fontes

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  22. Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 30, de 5 de agosto de 2009, com as alterações da IN 38/2020. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-pecuarios/alimentacao-animal/arquivos-alimentacao-animal/copy_of_IN302009MAPAALTRERADAPELAIN3820202alterada1052021.pdf
  23. Brasil. Lei nº 5.517, de 23 de outubro de 1968, arts. 5º e 6º. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5517.htm
  24. Brasil. Decreto nº 12.031, de 28 de maio de 2024, que regulamenta a Lei 6.198/1974 e revogou o Anexo do Decreto 6.296/2007. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/decreto/d12031.htm
  25. Brasil. Lei nº 6.198, de 26 de dezembro de 1974. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-1979/l6198.htm
  26. Conselho Federal de Medicina Veterinária. Resolução nº 1.318, de 6 de abril de 2020. https://manual.cfmv.gov.br/arquivos/resolucao/1318.pdf
  27. Brasil. Lei nº 5.550, de 4 de dezembro de 1968, que dispõe sobre o exercício da profissão de zootecnista. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/l5550.htm