
Na primeira semana, mantenha a ração que o animal já comia na ONG. A própria mudança de casa afrouxa as fezes, e trocar a comida no mesmo dia impede saber o que causou o quê. Depois disso, a ferramenta de nutrição da WSAVA manda fazer a transição em pelo menos 3 dias, e traz uma tabela de 4 dias misturando as duas rações. Em gato, a ração nova vai em vasilha separada, porque muitos gatos recusam comida misturada.
O que a mudança de casa faz sozinha
O conselho de não trocar a ração no dia da adoção não é sobre ração. É sobre o que a mudança de endereço faz no intestino mesmo quando a comida não muda.
Um grupo de pesquisadores transportou 12 beagles adultos e saudáveis por cerca de 2.080 km, de Shandong a Sichuan, na China, numa van, ao longo de cinco dias. Os cães comeram o mesmo lote da mesma ração durante a viagem e em todo o período de observação. Na escala de escore fecal usada nesse estudo, 1 é líquido de escorrer e 5 é duro e seco, com o 3 no meio: fezes macias, com forma e úmidas. Na chegada, a média dos 12 cães estava em 2,1: fezes macias e sem forma. No dia seguinte já marcava 3,5, e no sétimo dia, 4,2, que nessa escala não é o meio: é a faixa do duro e seco. A viagem mexeu nas duas direções.
Dois detalhes seguram essa frase no lugar. Nenhum cão vomitou nem teve diarreia, então o efeito foi subclínico: apareceu no escore das fezes e na microbiota, não na sala do veterinário. E no sétimo dia parte das medidas continuava diferente do estado de chegada, o que faz da primeira semana inteira um período de ajuste.
Nada disso é um vira-lata de ONG indo para um apartamento. São 12 beagles de laboratório, alojados um por um, com ração pesada em gramas, num transporte rodoviário na China. O que o estudo autoriza a dizer é modesto e serve: a viagem, sozinha, mexeu no intestino de cães saudáveis que continuaram comendo exatamente a mesma coisa.
Daí o motivo prático de manter por alguns dias a ração que ele já comia. Se a casa e a comida mudam no mesmo dia e as fezes amolecem, você perde a única informação útil que tinha, que é saber o que causou o quê. Pergunte à organização qual ração o animal recebia e peça um pouco dela, ou compre a mesma. Esperar uma semana não custa nada ao animal saudável que já vinha comendo aquela ração, e devolve a informação de qual mudança causou o quê.
Antes de culpar a ração, pense na Giardia
A diretriz de protozoários intestinais da ESCCAP, conselho europeu de especialistas em parasitas de animais de companhia, na 3ª edição de março de 2025, nomeia "animais jovens após o desmame ou o re-homing" entre os que adoecem por Giardia. Cães e gatos que vivem em canil, gatil, abrigo ou em aglomeração com saneamento ruim entram na lista de risco alto da diretriz, que também recomenda exame diagnóstico no filhote que chega a uma casa onde já há outros animais. No cão, diz o texto, a infecção é frequentemente subclínica; no gato, normalmente causa doença clínica.
A prevalência de 3% a 7% que a ESCCAP cita é europeia, e o número brasileiro é bem outro. Uma revisão sistemática publicada em 2026 na Frontiers in Parasitology reuniu 114 estudos brasileiros de 2016 a março de 2026 e achou, em cães, positividade de 0,75% a 50,0%. As frequências mais altas apareceram justamente nos ambientes coletivos: num hospital veterinário de Blumenau, em Santa Catarina, a positividade chegou a 50%, e em Cuiabá, no Mato Grosso, cães de abrigo tiveram razão de chances de 12,57 para infecção. Os próprios autores registram que os métodos variavam muito entre os estudos, o que puxa o intervalo para os dois lados.
A leitura prática é direta. O animal que você adotou veio do tipo de lugar onde a Giardia mais circula, e num cão ela pode não dar sintoma nenhum. Marque a consulta da primeira semana, leve amostra de fezes e leve também o histórico que a ONG entregou. Nada de comprar remédio por conta própria: o guia de vacinas e vermífugo explica quem define produto e frequência.
Em quantos dias se faz a troca
A resposta tem duas partes, e a segunda desmonta um pouco a primeira.
O comitê de nutrição da WSAVA, associação mundial de veterinários de pequenos animais, publica uma ferramenta de perguntas frequentes cuja última atualização é de janeiro de 2018. Ela diz que, em animal saudável, a troca se faz numa transição lenta de pelo menos 3 dias, mais longa em cães e gatos doentes, e que mudança repentina pode dar vômito e diarreia. A tabela que vem logo abaixo é de 4 dias:
|
Dia |
Ração atual |
Ração nova |
|---|---|---|
|
1 |
75% |
25% |
|
2 |
50% |
50% |
|
3 |
25% |
75% |
|
4 |
0% |
100% |
Não são 7 dias. E a mesma WSAVA, na diretriz de avaliação nutricional publicada no Journal of Small Animal Practice em junho de 2011, escreve que as preferências sobre método de transição variam "sem nenhuma evidência clara mostrando que um método seja superior", que alguns animais toleram a troca abrupta sem problema e que outros parecem ter menos queixa intestinal quando a comida muda ao longo de 7 a 10 dias. Duas fontes da mesma entidade, dois números. O "7 dias" que circula em português é precaução razoável, não protocolo provado.
O ensaio que compara os dois métodos de frente foi feito com 13 filhotes de beagle, sete na troca abrupta e seis na transição gradual de uma semana, com a ração pesada grama a grama. A média do escore fecal ficou melhor no grupo gradual, 2,607 contra 2,837, com p de 0,009. As duas medidas que o tutor de fato teme não foram: fezes moles apareceram em 7,14% das avaliações do grupo gradual contra 10,20% do abrupto, com p de 0,721, e a taxa de diarreia foi de zero contra 10,20%, com p de 0,059, acima do limite de 5%. O resumo do próprio artigo afirma que a transição gradual reduziu a incidência de diarreia. A tabela dele não sustenta isso. E vale olhar como a semana foi montada: o grupo abrupto comeu 100% da ração nova nos sete dias, enquanto o gradual passou a maior parte da semana comendo sobretudo a antiga. Parte da vantagem no escore pode vir do desenho, e não do método.
Quanto tempo o intestino leva para se acostumar também já foi medido. Em 12 beagles adultas de canil que trocaram de dieta de uma vez, num delineamento cruzado e entre extremos, de um seco rico em fibra para um enlatado rico em proteína e gordura, as fezes afrouxaram nas duas rações testadas, com o escore fecal subindo rápido logo depois da troca. Os metabólitos fecais se estabilizaram em cerca de 2 dias e a microbiota em cerca de 6, e tudo o que os autores mediram voltou a ficar estável em até 2 semanas depois da mudança.
Junte as três coisas e dá para escolher sem chutar. Em cão adulto saudável, a rampa de 4 dias da WSAVA atende o piso de 3 dias que ela recomenda. A própria entidade registra que não há evidência de método superior, e que a escolha é caso a caso, com o veterinário. Estique para 7 a 10 dias se ele tem histórico de intestino sensível, se é filhote, se está doente ou se acabou de chegar, porque aí você está somando mexidas. E se a ração antiga acabou de repente, uma troca direta não é catástrofe: parte dos animais passa por ela com pouco ou nenhum problema.
Em gato, a vasilha é outra
A mesma ferramenta da WSAVA separa as espécies, e é aqui que quase todo texto brasileiro erra. Em cão, as duas rações podem ir misturadas na mesma vasilha. No gato, a ração nova tem de ser oferecida numa vasilha completamente separada da antiga, porque é comum o gato recusar comida misturada.
"Misture 25% da nova" aplicado a gato pode produzir um gato que simplesmente para de comer, e aí o problema deixa de ser a consistência das fezes. O consenso da ISFM sobre gato inapetente, de 2022, registra que o gato é vulnerável à desnutrição pelo metabolismo e pelas exigências próprias da espécie, que ele é suscetível a estresse a ponto de reduzir a ingestão e que postergar a intervenção deixa o quadro pior. Esse consenso trata de gato hospitalizado, não de transição de ração em casa, então ele não serve para inventar prazo em horas. Serve para a regra: gato que recusa a comida nova e para de comer é caso de veterinário, não de esperar para ver.
Como olhar as fezes
A escala que os dois ensaios de transição com cães usam tem 5 pontos e não depende de tabela de fabricante:
|
Nota |
Como estão as fezes |
|---|---|
|
1 |
Bolinhas duras e secas, massa pequena e dura |
|
2 |
Duras, com forma, secas; permanecem firmes e macias |
|
3 |
Macias, com forma e úmidas, mantêm o formato |
|
4 |
Macias e sem forma, tomam o formato do recipiente |
|
5 |
Aguadas, líquidas de escorrer |
Nessa direção, quanto maior o número, mais líquido. No estudo de transporte que abre este guia, a escala corre ao contrário: lá o 1 é o líquido e o 5 é o duro e seco. Copiar um número de um estudo para o outro sem conferir a direção inverte o sentido da frase, e é por isso que aqui cada número vem com a escala em que foi medido. A tabelinha de 1 a 7 que circula em português é material de fabricante de ração, não de diretriz veterinária.
No estudo com os filhotes, fezes moles começavam em 3,5 e diarreia em 4, na escala acima. Serve de referência para o que anotar em casa durante a transição: nota, horário e o que ele comeu.
Quando a diarreia aparece
Diarreia aguda em cão é comum e, no registro britânico, curta. Num levantamento de prontuários de clínicas primárias do Reino Unido, sobre uma população de 2.250.417 cães, 1.835 casos confirmados por leitura manual de uma amostra aleatória levaram a uma estimativa, corrigida pela subamostragem, de 8,18% de chance de um cão receber atendimento veterinário por diarreia aguda em um ano, mais ou menos 1 em cada 12. Repare no que está sendo medido: é atendimento, não episódio. Cão que tem diarreia e não vai ao veterinário não entra na conta. Em 80,27% dos casos bastou uma consulta, e 7,19% precisaram de internação. O levantamento não mediu cura nem óbito.
O mesmo levantamento põe a troca de ração no tamanho real dela. O gatilho suspeito anotado no prontuário foi comer porcaria na rua em 9,54% dos casos, gastroenterite em 8,12%, colite em 4,63%, reação a anti-inflamatório em 4,63% e troca de ração em 4,58%. Em 40,11% dos prontuários não havia gatilho nenhum registrado. A troca de alimento é uma causa possível, não a principal. Os próprios autores lembram que transição rápida demais entra nessa conta junto com infecção viral, dieta e comportamento do cão.
Os tratamentos mais usados nesses casos foram probiótico, em 59,62%, manejo dietético, em 43,98%, antibiótico, em 38,20%, e maropitant, em 24,03%. Os dois primeiros da lista merecem um parágrafo cada.
Antibiótico não é atalho. A diretriz do ENOVAT, rede europeia para otimização da terapia antimicrobiana veterinária, saiu em 2024 com metodologia GRADE e quatro recomendações fortes apoiadas em evidência de certeza alta. No conjunto, elas desaconselham o antimicrobiano em cão com diarreia aguda, hemorrágica ou não, de apresentação leve ou moderada. O painel não fecha a porta: a Recomendação 4 abre exceção e a Recomendação 5 chega a sugerir antimicrobiano no cão com sinais sistêmicos de quadro grave. A leitura correta não é "nunca", é "não por conta própria e não em quadro leve". Dar antibiótico que sobrou de outra vez é risco, não pressa resolvida.
Probiótico é reflexo, não resposta. A revisão sistemática com meta-análise que sustentou essa diretriz concluiu que produtos nutracêuticos não mostraram efeito clinicamente significativo em encurtar a duração da diarreia, com certeza de evidência entre muito baixa e moderada. Nenhum efeito adverso foi relatado nos estudos, o que explica por que o hábito continua. O próprio painel não se posiciona: a Recomendação 8 não é contra nem a favor do probiótico. O que a evidência não autoriza é prometer que ele resolve mais rápido.
Nos prontuários britânicos, os sinais que mais apareceram junto com a diarreia foram vômito, em 44,25%, apetite reduzido, em 27,68%, letargia, em 24,20%, dor abdominal, em 13,41%, febre, em 8,72%, e desidratação, em 7,79%. Em separado, porque o denominador é outro: em 29,32% dos casos a diarreia foi registrada como hemorrágica, e o prontuário só descrevia a aparência das fezes em 67,63% deles. Sinal que aparece acompanhado é motivo para ligar para o veterinário, não para diagnosticar em casa. Filhote com esquema de vacina incompleto e diarreia não é caso de mexer na ração: é caso de ligar para o veterinário no mesmo dia.
Nos gatos, os prazos que circulam vêm de uma revisão de 2026: diarreia aguda costuma se resolver sozinha em até duas semanas, e acima de três semanas ela é considerada crônica, com causas mais complexas. O corte de três semanas é convenção da literatura e serve de sinal prático para procurar o veterinário. Já o "até duas semanas" fomos conferir na fonte que a revisão indica, e ela não sustenta o número: é um ensaio clínico com 31 CÃES, sobre metronidazol em diarreia aguda, no qual o quadro se resolveu em 2,1 dias com o remédio e 3,6 dias com placebo. Dias, em cão, num estudo que nem era sobre isso. Trate as duas semanas como prazo de segurança que circula na clínica, não como número medido em gato. O número do gato nós fomos conferir na origem. Ele vem da rede de vigilância SAVSNET, que entre maio de 2010 e agosto de 2011 registrou 16.223 consultas em 42 unidades de 19 clínicas do Reino Unido, com 9.115 cães e 3.462 gatos: 7% dos cães e 3% dos gatos chegaram com diarreia. Repare no que isso mede, porque muda a leitura: é a fatia de quem foi levado ao veterinário, não a fatia dos animais que existem. E a maioria dos que chegaram, 51%, estava doente havia de 2 a 4 dias; vômito junto ou sangue na diarreia encurtava esse tempo.
Trocar de ração não é teste de alergia
Quem desconfia de reação alimentar costuma trocar de ração três vezes num mês para "testar". Isso mexe no intestino três vezes e não descobre nada. O padrão-ouro para reação alimentar adversa é o teste de dieta de eliminação, com uma única dieta, seguido da reintrodução do alimento anterior para ver se os sinais voltam. O prazo de 8 semanas que circula tem origem conhecida, e fomos ler: uma revisão crítica de 2015, de Olivry, Mueller e Prélaud, que juntou o que havia publicado até dezembro de 2014. Em 209 cães, cerca de metade teve redução marcada dos sinais em 3 semanas, mais de 85% estavam normais em 5 semanas e mais de 95% em 8; menos de 5% precisaram de até 13 semanas. Em 40 gatos, a remissão chegou a 50% por volta de 4 semanas, 80% em 6 e 90% em 8. A conclusão dos autores é essa: no mínimo 5 semanas no cão e 6 no gato para diagnosticar 80% dos casos, e 8 semanas para passar de 90% nas duas espécies. Eles acrescentam uma coisa que costuma se perder no caminho: se os sinais sumirem antes, o veterinário pode partir para a reintrodução já, porque quem confirma o diagnóstico é a volta dos sinais, não o calendário. Os três autores declaram financiamento de pesquisa ou honorários da Royal Canin, que pagou a publicação do artigo. Uma transição de 7 dias não testa alergia nenhuma, e quem monta esse teste é o veterinário.
Petisco não compensa a transição
Aumentar petisco porque "ele está comendo menos da nova" não repõe nada. A Instrução Normativa 30 do Ministério da Agricultura, de 2009, separa as categorias no Brasil: alimento completo é o que atende integralmente às exigências nutricionais, alimento específico é o de agrado, prêmio ou recompensa, e produto mastigável é o de diversão, com "valor nutricional desprezível". O petisco é obrigado a estampar no rótulo a frase "ESTE PRODUTO NÃO SUBSTITUI O ALIMENTO COMPLETO".
A quantidade da ração também não sai do apetite. O modo de usar é informação obrigatória de rótulo pelo artigo 64 do Decreto 12.031, de maio de 2024, que regulamenta a Lei 6.198/1974 e é a norma em vigor desde 8 de julho de 2024. Esse decreto revogou o anexo do Decreto 6.296/2007, que é o que quase todo texto brasileiro sobre rótulo de ração ainda cita, inclusive o texto consolidado da própria Instrução Normativa 30. O mesmo decreto proíbe rótulo que indique propriedade medicinal ou terapêutica fora de norma específica, e proíbe expressão que induza o consumidor a equívoco.
Quanto dar, como ler o rótulo e o que pensar de comida caseira são assunto dos outros textos da área de alimentação, que saem com a mesma régua de fonte.
Vira-lata não tem intestino mais forte
Essa é simpática e não se sustenta. No modelo do estudo britânico, o grupo de referência é o cão mestiço do Reino Unido, que não é exatamente o nosso vira-lata, mas é o mais perto que esse tipo de estudo chega dele, e seis raças tiveram chance maior de diarreia aguda do que ele, entre elas o maltês, com razão de chances de 2,17. Duas tiveram chance menor: o jack russell terrier, com 0,72, e o chihuahua, com 0,59. O vira-lata é a linha de base, não o campeão de resistência.
A idade pesou mais que a raça: cães com menos de 3 anos e cães com mais de 9 tiveram mais diagnósticos do que os de 4 a 5 anos. Ainda assim, o modelo inteiro explicou só 6,73% da variação dos dados, o que é um jeito técnico de dizer que raça e idade não montam perfil de risco individual. O animal da sua casa não está descrito nessa tabela.
Quem responde isso é o veterinário
A diretriz da WSAVA de 2011 colocou a avaliação nutricional como o quinto sinal vital do exame físico, ao lado de temperatura, pulso, respiração e avaliação de dor, e a ANCLIVEPA está entre as entidades que a endossam. Mudança de alimento, nessa lógica, é assunto de consulta.
Se você quiser um especialista, a credencial muda de país. A WSAVA usa a certificação do American College of Veterinary Nutrition ou do European College of Veterinary Comparative Nutrition como critério para avaliar quem formula a ração de uma marca, e lista o ACVN entre os caminhos para achar consultoria em nutrição. São colégios norte-americano e europeu, que não existem aqui. No Brasil, o título de especialista em nutrição e em nutrologia de cães e gatos passou a ser concedido pelo Colégio Brasileiro de Nutrição Animal, habilitado pela Resolução 1.464 do CFMV, de 23 de junho de 2022, publicada no Diário Oficial da União em 4 de julho daquele ano. O de nutrição pode ser solicitado por zootecnistas e por médicos-veterinários.
Uma dúvida frequente fica sem resposta aqui de propósito: se vale deixar o animal em jejum quando a diarreia começa. Não encontramos diretriz aberta que responda isso para tutor, então a pergunta é para a consulta.
O que ainda não se sabe
Vale saber onde termina a evidência deste guia.
Os três estudos centrais foram feitos com beagles de canil, 13 filhotes, 12 adultos e 12 transportados, alojados individualmente e com ração pesada em gramas. Os autores do estudo de 2022 escrevem que a pesquisa precisa avançar para animais de tutor, vivendo em ambientes variados. Não encontramos estudo de transição de ração feito no Brasil, nem com animal de abrigo, nem com animal recém-adotado. E não encontramos nenhum estudo comparando troca abrupta com transição gradual em gatos: tudo o que este guia diz sobre gato vem de diretriz e de consenso, não de ensaio de transição.
Há também a vizinhança do dinheiro, que não invalida nada mas precisa aparecer. A diretriz de nutrição e manejo de peso da AAHA, de 2021, declara apoio de bolsas educacionais da Hill's Pet Nutrition, da Purina Pro Plan Veterinary Diets e da Royal Canin, e a página de nutrição da WSAVA hospeda uma seção mantida pelo Purina Institute. A diretriz de 2011 da WSAVA cita a AAHA de 2010, e não esta de 2021: a de 2021 é posterior. Procuramos protocolo numérico de transição nessa diretriz da AAHA e nas subpáginas de planos alimentares, recomendação nutricional e microbioma, e não achamos: o número de dias, aqui, veio da WSAVA e dos dois ensaios com beagles. O mesmo critério vale para a revisão felina de 2026 que este guia usa nos prazos de diarreia: ela declara que um dos autores é ligado a uma empresa de ciência e tecnologia de alimento para animais e outra autora a uma empresa de biotecnologia, e a revisão crítica de 2015 sobre dieta de eliminação teve as taxas de publicação pagas pela Royal Canin, que também financiou pesquisa e honorários dos três autores.
Por último, a data. O conselho de transição em que este texto se apoia vem de uma ferramenta cuja última atualização registrada é de janeiro de 2018 e de uma diretriz de junho de 2011. Conferimos os dois documentos em setembro de 2026. Se a WSAVA publicar número diferente, este guia muda.
Fontes
- Lyu Y, Su C, Sun K, Wang Y, Zhang L, Pu J, Wu C, Thomas D, Che L. Post-transport recovery trajectory of the canine gut microbiome and metabolome. Journal of Animal Science and Biotechnology, 2026. https://doi.org/10.1186/s40104-026-01385-z
- Lin CY, Jha AR, Oba PM, Yotis SM, Shmalberg J, Honaker RW, Swanson KS. Longitudinal fecal microbiome and metabolite data demonstrate rapid shifts and subsequent stabilization after an abrupt dietary change in healthy adult dogs. Animal Microbiome, 2022. https://doi.org/10.1186/s42523-022-00194-9
- Liao P, Yang K, Huang H, Xin Z, Jian S, Wen C, He S, Zhang L, Deng B. Abrupt dietary change and gradual dietary transition impact diarrheal symptoms, fecal fermentation characteristics, microbiota, and metabolic profile in healthy puppies. Animals, 2023. https://doi.org/10.3390/ani13081300
- O'Neill DG, Prisk LJ, Brodbelt DC, Church DB, Allerton F. Epidemiology and clinical management of acute diarrhoea in dogs under primary veterinary care in the UK. PLOS ONE, 2025. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0324203
- Jessen LR, Werner M, Singleton D, Prior C, Foroutan F, Ferran AA et al. European Network for Optimization of Veterinary Antimicrobial Therapy (ENOVAT) guidelines for antimicrobial use in canine acute diarrhoea. The Veterinary Journal, 2024. https://doi.org/10.1016/j.tvjl.2024.106208
- Scahill K, Jessen LR, Prior C, Singleton D, Foroutan F, Ferran AA et al. Efficacy of antimicrobial and nutraceutical treatment for canine acute diarrhoea: a systematic review and meta-analysis for ENOVAT guidelines. The Veterinary Journal, 2024. https://doi.org/10.1016/j.tvjl.2023.106054
- Fonseca MA, Sarti ESG, Guedes E. Giardia spp. in Brazil at human-animal-environment interfaces: a systematic review from a One Health perspective. Frontiers in Parasitology, 2026. https://doi.org/10.3389/fpara.2026.1895842
- Xu J, Wen C, Lourenço A, Chi C, Mao J, Yu D. Feline chronic diarrhea: causes and nutritional management. Veterinary and Animal Science, 2026. https://doi.org/10.1016/j.vas.2026.100766
- Taylor S, Chan DL, Villaverde C, Ryan L, Peron F, Quimby J, O'Brien C, Chalhoub S. 2022 ISFM consensus guidelines on management of the inappetent hospitalised cat. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2022. https://doi.org/10.1177/1098612X221106353
- ESCCAP. Guideline 06: Control of Intestinal Protozoa in Dogs and Cats, 3ª edição, março de 2025. https://www.esccap.org/guidelines/gl6/
- WSAVA Global Nutrition Committee. Frequently asked questions and myths, última atualização em janeiro de 2018. https://wsava.org/wp-content/uploads/2020/01/Frequently-Asked-Questions-and-Myths.pdf
- WSAVA 5th Vital Assessment Group (V5). WSAVA nutritional assessment guidelines. Journal of Small Animal Practice, junho de 2011. https://wsava.org/wp-content/uploads/2020/01/WSAVA-Nutrition-Assessment-Guidelines-2011-JSAP.pdf
- WSAVA Global Nutrition Committee. Guidelines on selecting pet foods, atualizado em 10 de março de 2021. https://wsava.org/wp-content/uploads/2021/04/Selecting-a-pet-food-for-your-pet-updated-2021_WSAVA-Global-Nutrition-Toolkit.pdf
- AAHA. 2021 AAHA nutrition and weight management guidelines. https://www.aaha.org/resources/2021-aaha-nutrition-and-weight-management-guidelines/
- Brasil. Ministério da Agricultura. Instrução Normativa nº 30, de 5 de agosto de 2009, texto consolidado com as alterações da IN 38/2020 e da Portaria 105/2021. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-pecuarios/alimentacao-animal/arquivos-alimentacao-animal/copy_of_copy_of_IN302009MAPAALTRERADAPELAIN3820202alterada1052021.pdf
- Brasil. Decreto nº 12.031, de 28 de maio de 2024. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/Decreto/D12031.htm
- Brasil. Lei nº 6.198, de 26 de dezembro de 1974. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-1979/l6198.htm
- Jones PH, Dawson S, Gaskell RM, Coyne KP, Tierney A, Setzkorn C, Radford AD, Noble PJ. Surveillance of diarrhoea in small animal practice through the Small Animal Veterinary Surveillance Network (SAVSNET). The Veterinary Journal, 2014. https://doi.org/10.1016/j.tvjl.2014.05.044
- Langlois DK, Koenigshof AM, Mani R. Metronidazole treatment of acute diarrhea in dogs: a randomized double blinded placebo-controlled clinical trial. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2020, publicado on-line em 19 de novembro de 2019. https://doi.org/10.1111/jvim.15664
- Olivry T, Mueller RS, Prélaud P. Critically appraised topic on adverse food reactions of companion animals (1): duration of elimination diets. BMC Veterinary Research, 2015. https://doi.org/10.1186/s12917-015-0541-3
- CFMV. Resolução homologa título de especialista em nutrição e nutrologia de cães e gatos, sobre a Resolução CFMV nº 1.464, de 23 de junho de 2022. https://www.cfmv.gov.br/resolucao-homologa-titulo-de-especialista-em-nutricao-e-nutrologia-de-caes-e-gatos/comunicacao/noticias/2022/07/05/


