
Cinomose é uma doença viral muito contagiosa do cão, que ataca respiração, intestino e sistema nervoso. Febre, secreção no olho ou no nariz, tosse, vômito ou diarreia num cão sem vacina completa pedem veterinário no mesmo dia, e tremor, convulsão ou fraqueza nas patas é emergência. Não há remédio que mate o vírus: o tratamento é de suporte, e a prevenção é a vacina essencial da WSAVA. Cão recém-adotado sem histórico vai ao veterinário na primeira semana e fica longe de outros cães até lá.
Quando é emergência
Ligue para o veterinário agora se o cão tiver qualquer um destes sinais:
- Convulsão, inclusive a que vem com baba e movimento de mastigar no vazio. O Merck chama essa crise de "chewing-gum fit", algo como crise de chiclete.
- Tremor ou espasmo repetido de um músculo, numa pata ou na cara, que o cão não controla.
- Fraqueza ou paralisia das patas, em geral começando pelas de trás.
- Andar em círculo, cabeça inclinada para um lado ou olhos que tremem de um lado para o outro.
- Respiração difícil, cão abatido que não come, vômito ou diarreia com sinais de desidratação.
Peça consulta no mesmo dia, sem esperar piorar, quando um cão sem vacina completa, ou de histórico desconhecido, tiver febre, secreção no olho ou no nariz, tosse, falta de apetite, vômito ou diarreia. A Associação Americana de Medicina Veterinária (AVMA) põe em risco maior o filhote com menos de 4 meses e o cão não vacinado, e pede contato imediato com o veterinário diante de qualquer desses sinais. Se não souber onde há atendimento, a página de serviços por cidade mostra veterinários perto de você.
Ao marcar, conte que pode ser cinomose, porque o cão doente tem de ficar separado de outros cães, inclusive dos que moram com você, segundo a AVMA.
O que pode ser
Como a cinomose costuma evoluir
O vírus da cinomose é parente próximo do vírus do sarampo. Pelo Merck Veterinary Manual, a primeira febre aparece de 3 a 6 dias depois do contágio, às vezes com perda de apetite, e pode passar despercebida. A febre cede por alguns dias e volta, agora com secreção aquosa no nariz, secreção espessa no olho, cansaço e falta de apetite. Depois vêm os sinais de intestino e de respiração, em geral complicados por bactérias que se aproveitam do cão já fragilizado, nas palavras do manual.
O sistema nervoso pode ser atingido junto com esses sinais, depois deles ou sem que eles apareçam. Essa fase pode demorar semanas ou meses para dar sinal. O Merck é direto: não há como prever qual cão infectado vai ter sinais neurológicos. A infecção pode ser leve, quase invisível, ou grave. Na forma sistêmica, o curso pode durar só 10 dias.
Outro sinal que dá nome popular à doença em inglês é o endurecimento da pele das almofadas das patas e da ponta do nariz. A AVMA acrescenta que o filhote infectado antes de nascerem os dentes permanentes fica com dano definitivo nos dentes.
Num serviço de neurologia do hospital veterinário da Universidade Federal de Goiás, 17 cães tiveram cinomose com sinais neurológicos confirmada entre 2018 e 2022. Os sinais de fora do sistema nervoso apareceram em 16 deles, mas a ordem variou: em 5 vieram antes, em 6 vieram depois e em 2 vieram juntos. Em média, os cães chegaram ao serviço 60 dias depois do primeiro sinal neurológico.
O que se confunde com cinomose
Cinomose não se reconhece a olho, e o Merck lista o que pode parecer com ela:
- Parvovirose, outra infecção viral do cão.
- Tosse dos canis, a traqueobronquite infecciosa.
- Hepatite infecciosa canina, do adenovírus, outra doença coberta pela vacina essencial.
- Verme e outras infecções por vírus ou bactéria, que podem mudar os sinais de respiração e de intestino ou ser confundidos com eles.
- Intoxicação por chumbo ou por alguns inseticidas, que pode dar sinal de intestino e de sistema nervoso ao mesmo tempo.
Se o vômito é o sinal que mais aparece, o post sobre cachorro vomitando ajuda a separar o que pede consulta no mesmo dia.
Como pega
O contágio é sobretudo pelo ar, segundo o Merck, com as gotículas que o cão infectado solta. Espirro, tosse e latido espalham essas gotículas, e a AVMA lembra que o vírus também passa por pote de água e de comida dividido e por outros objetos. O cão infectado elimina o vírus em secreção respiratória, saliva e urina e pode continuar contagioso por meses. A versão do manual para tutores acrescenta que alguns cães eliminam o vírus por meses na saliva e nas fezes mesmo depois de parecer curados. A cadela infectada pode passar o vírus aos filhotes ainda na barriga.
Fora do corpo, o vírus é frágil. O manual o chama de relativamente instável e sensível à maioria dos desinfetantes, que devem entrar na limpeza de canis e clínicas.
O vírus circula no Brasil, inclusive em cão que parece saudável. Num estudo em 2 canis públicos de Belém, entre 2019 e 2020, o material genético do vírus apareceu nas fezes de 23,6% dos cães: 18,4% entre os saudáveis e 46,7% entre os que tinham diarreia. Em Jataí, Goiás, um teste do mesmo tipo, feito em sangue e secreção do nariz, deu positivo em 48 de 141 cães atendidos com suspeita de cinomose entre 2017 e 2019. Achar o material genético não prova que o cão estava transmitindo, mas mostra que o vírus está por perto onde cães dividem canil.
O vírus também atinge animais silvestres. Em 2025, pesquisadores descreveram um surto fatal em saguis de parques urbanos de Belo Horizonte. A AVMA recomenda manter o cão longe de animal silvestre.
O que observar em casa
O veterinário vai querer saber a história completa. Anote:
- Vacinas: quais o cão tomou, em que datas, e se a carteira existe. Se ele veio de abrigo ou ONG, peça o registro a quem entregou o cão.
- De onde ele veio e com quem conviveu nas últimas semanas: abrigo, rua, feira de adoção, outro cão doente.
- A temperatura, se você tiver termômetro, e quando a febre apareceu e sumiu. O padrão de febre que vai e volta conta.
- Olho e nariz: se a secreção é aguada ou espessa e de que cor.
- Tosse, espirro, vômito, diarreia, com data de início.
- Apetite, água e disposição.
- Qualquer movimento estranho: tremor, tique, crise, tropeço. Um vídeo curto no celular mostra o que a descrição não alcança.
- Almofadas das patas e nariz: se estão mais duros ou grossos que antes.
- Outros cães da casa: vacinas de cada um e se algum tem sinal.
Enquanto espera a consulta, separe o cão dos outros cães, cada um com seu pote. Não dê remédio por conta própria nem escolha dose: antibiótico, antitérmico e anticonvulsivante são decisão da consulta.
O que o veterinário costuma investigar
A suspeita começa pelos sinais num cão em risco, sobretudo o não vacinado ou de vacina desconhecida, e a confirmação vem do laboratório, no caminho que o Merck descreve:
- Exame físico e histórico, com atenção a febre e a sinais de mais de um sistema ao mesmo tempo.
- Exames de sangue. A queda de um tipo de glóbulo branco, o linfócito, é comum, mas não fecha diagnóstico sozinha.
- Teste para o vírus (RT-PCR) em material colhido da conjuntiva do olho, do nariz, do sangue, da urina e de outros lugares. O Merck avisa que o RT-PCR comum pode não separar o vírus da doença do vírus da vacina, e a versão quantitativa do teste pode resolver isso.
- Testes de anticorpo, e às vezes o exame do líquor, o líquido que envolve cérebro e medula, quando há sinal neurológico.
- Raio X do tórax, se houver tosse ou respiração difícil.
O tratamento
Não existe remédio que mate o vírus. A AVMA diz que não há cura nem antiviral aprovado contra a cinomose, e o Merck descreve o tratamento como suporte: hidratação, nutrição, combate às infecções por bactéria, controle de febre, dor e crises, e muito cuidado de enfermagem, para dar tempo ao sistema de defesa do próprio cão.
O prognóstico depende de o sistema nervoso ter sido atingido. Entre os cães que sobrevivem, a recuperação dos sinais de respiração e de intestino é esperada; a dos sinais neurológicos é imprevisível, e eles podem ficar depois que o resto passou, segundo o Merck. A AVMA estima que cerca de 1 em cada 2 cães com cinomose morre da infecção, e que o sobrevivente fica imune à doença pelo resto da vida, mas costuma ter dano permanente no sistema nervoso. No estudo de Goiânia, 8 dos 17 cães com a forma neurológica morreram. Quando a doença neurológica é grave e piora, o manual para tutores cita a eutanásia como uma possibilidade a conversar com o veterinário.
A vacina e o cão recém-adotado
O que a vacina faz
A diretriz de vacinação da WSAVA de 2024 põe a vacina contra cinomose entre as essenciais, que todo cão deve receber em qualquer parte do mundo, junto com as de parvovirose e adenovírus. Ela vem numa vacina combinada, que protege também contra outros vírus do cão, como explica a AVMA.
Filhote precisa de mais de uma dose porque o anticorpo que vem da mãe atrapalha a vacina, e cada filhote o perde num momento diferente. Pela WSAVA, as doses se repetem a cada 2 a 4 semanas, a última com 16 semanas de vida ou mais, e o reforço vem com 26 semanas ou depois. Se só der para aplicar uma dose, por custo, a diretriz pede que seja com 16 semanas ou mais. Para o adulto, o Merck registra que a imunidade da vacina de vírus vivo modificado contra cinomose dura 3 anos ou mais, e lembra que o intervalo do reforço depende da circulação da doença na região. Calendário, reforços e o caso do adulto sem histórico estão no guia de vacinas e vermífugo.
Vacina completa protege muito, mas não é garantia absoluta. Numa meta-análise de 2019 com 53 estudos e 11.527 cães, feita por pesquisadores da Universidade de Brasília e da Universidade Federal de Goiás, o cão com vacinação completa teve chance bem menor de dar positivo para o vírus, e o não vacinado, chance maior. No estudo de Goiânia, 6 dos 17 cães com cinomose neurológica tinham a vacina em dia, 6 estavam com ela atrasada e 5 não tinham registro. Um estudo brasileiro de 2025, feito com modelagem por computador, propõe que diferenças entre o vírus que circula no país e as cepas das vacinas expliquem parte das falhas. É hipótese, e não muda a recomendação: vacinar continua sendo a principal proteção.
Nos primeiros dias com o cão adotado
Cão que vem de abrigo, de canil público ou da rua pode ter tido contato com o vírus antes de chegar, e os primeiros sinais podem demorar dias ou semanas. A WSAVA recomenda que todo cão que entra num abrigo seja vacinado antes ou no momento da entrada, então vale perguntar a quem entregou o cão quais vacinas foram dadas e quando. O que fazer:
- Leve ao veterinário na primeira semana, com o que você souber das vacinas, e combine o esquema. A AVMA lembra que, para o adulto nunca vacinado ou atrasado, não é tarde para começar.
- Se já há cão em casa, confira se a vacina dele está em dia antes da chegada do novo.
- Separe potes e caminha até a consulta, e mantenha o novo longe de cães desconhecidos.
- Filhote fica longe de onde cães se reúnem (pet shop, parque, creche, banho e tosa) até completar a série de vacinas, como pede a AVMA. Isso não significa trancar o filhote em casa: a conversa sobre socialização segura é com o veterinário.
- Observe febre, secreção, tosse, diarreia e qualquer tremor nas primeiras semanas, e anote tudo.
O roteiro completo da chegada está no guia dos primeiros dias do animal adotado.
Perguntas frequentes
Cinomose pega em gente? E no gato? Nenhuma das fontes lidas descreve pessoa doente de cinomose. Uma revisão de 2015 trata como possibilidade teórica, por estudos de laboratório com uma cepa adaptada a macaco, e não como algo que já aconteceu. Quanto ao gato, a AVMA diz que ele pode se infectar, mas dificilmente adoece.
Cão vacinado pode ter cinomose? Pode, mais raramente. A vacinação completa reduz bastante a chance de infecção, como mostra a meta-análise de 2019, mas nenhuma vacina protege 100% dos cães. Há ainda uma forma que aparece em cão adulto vacinado, a encefalite do cão velho, ligada ao vírus que ficou no cérebro. Pelo Merck, esse cão não transmite a doença.
Meu cão morreu de cinomose. Quando posso adotar outro? Não encontramos fonte que fixe um prazo. O que se sabe é que o vírus é frágil fora do corpo e sensível à maioria dos desinfetantes, segundo o Merck. Limpe a casa e os objetos do cão, e leve o próximo ao veterinário para vacinar logo que chegar. Se outro cão da casa conviveu com o doente, conte isso ao veterinário.
O cão que sobreviveu continua transmitindo? Pode, por um tempo. O manual Merck para tutores diz que alguns cães eliminam o vírus por meses na saliva e nas fezes depois de parecer recuperados. Quando ele pode voltar a conviver com outros cães é decisão do veterinário que acompanhou o caso.
O tremor que ficou depois da cinomose passa? Às vezes não. Os sinais neurológicos podem continuar depois que os de respiração e intestino somem, e a evolução deles é imprevisível, como descreve o Merck. O acompanhamento é com o veterinário.
Fontes
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