Pular para o conteúdo
Cães

Cachorro vomitando: o que pode ser e quando é emergência

Contar quantas vezes o cachorro vomitou não mede a gravidade, e um estudo com 99 cães mostra o que mede. Os sinais que pedem veterinário agora, as causas comuns no cão adotado e o que anotar para a consulta.

Sintoma: o que pode serSaúde
9 min de leitura
Cão cinza e branco deitado sobre uma toalha no piso da sala, ao lado de uma tigela de inox com água
Descanso perto da água. Imagem ilustrativa gerada com IA: não retrata um animal, uma pessoa ou um caso real.
Resposta curta

Vá ao veterinário agora se o cachorro faz força para vomitar e nada sai com a barriga estufada, se não consegue parar de vomitar, se há sangue ou borra de café no vômito, se pode ter engolido objeto, veneno ou remédio, ou se está abatido, com dor ou com a barriga tensa. O número de vômitos, sozinho, não mede a gravidade: num estudo com 99 cães atendidos por vômito em Munique, ele foi parecido nos casos simples e nos complicados, e o que separou os dois grupos foi o estado geral do cão. Filhote com vacina incompleta que vomita e tem diarreia com sangue também é caso de ir agora.

Quando é emergência

Leve o cachorro ao veterinário agora, sem esperar o próximo episódio, se o vômito vier com qualquer um destes sinais:

  • Ânsia repetida sem conseguir pôr nada para fora, com a barriga estufada, inquietação e baba. É o quadro da torção gástrica, que o manual veterinário Merck trata como emergência com risco de morte. Atinge sobretudo cães grandes de peito fundo, em geral depois de uma refeição grande seguida de exercício.
  • Vômito que não para, ou suspeita de que o cão engoliu um objeto. A obstrução é mais comum em cão jovem e grande.
  • Sangue no vômito, vivo ou com aspecto de borra de café, ou fezes pretas.
  • Vômito com diarreia com sangue, sobretudo em filhote com vacinação incompleta. A perda de líquido pode levar a choque.
  • Acesso a veneno ou remédio: raticida, chumbinho, comprimido de gente, comida tóxica. Baba, tremor e pupila contraída reforçam a suspeita.
  • Cão abatido, fraco, com febre ou com dor. O Merck descreve a posição de oração como sinal de dor na barriga: traseiro levantado, peito e patas da frente rentes ao chão.
  • Cadela não castrada que vomita, bebe e urina mais que o normal nas semanas seguintes ao cio.
  • Vômito depois de calor forte, com respiração muito ofegante, pele quente e cambaleio, sinais de insolação.

Ligue para a clínica antes de sair e esteja pronto para descrever o que aconteceu, como pede a página de emergências do Merck. Se não souber onde há atendimento, a página de serviços por cidade mostra veterinários perto de você.

Por que o número de vômitos ficou fora da lista

Um estudo prospectivo de 2023 acompanhou 99 cães levados por vômito ao serviço de emergência da Universidade de Munique, na Alemanha, e 34% deles eram sem raça definida. De quatro a cinco dias depois, os pesquisadores separaram os 34 casos simples, resolvidos só com tratamento dos sintomas, dos 65 complicados.

A contagem quase não mudou entre os grupos: mediana de 4,5 vômitos nos simples e 5 nos complicados, com 8 horas de duração nos dois. O apetite também não diferiu. Os complicados chegavam mais abatidos, com mais dor, barriga mais tensa, temperatura alterada e outros sinais além de uma diarreia sem sangue.

O limite é claro. Eram cães já levados à emergência, e caso cirúrgico evidente nem ia àquele serviço, então o estudo não diz que um terço dos vômitos em casa é bobagem. Diz que contar vômitos não mede a gravidade, e olhar o cão mede.

O que pode ser

Vômito, regurgitação ou tosse

Antes da causa, confira o que você viu. Vômito é ativo: vem depois de náusea, baba e ânsia, e a barriga contrai com força. Regurgitação é passiva, sem esforço e quase sem aviso. A comida sai pouco digerida, às vezes com a forma de tubo do esôfago, que é onde está o problema. No megaesôfago, o cão regurgita comida inteira logo depois de comer e perde peso.

Tosse seguida de ânsia também passa por vômito. Na tosse dos canis, a crise de tosse seca e áspera pode terminar em ânsia e engasgo. A doença se espalha rápido entre cães mantidos juntos, como em canil e hospital veterinário. Se o seu cão veio de canil ou abrigo, conte isso na consulta. Costuma ser leve e durar de 10 a 20 dias, mas em filhote pode evoluir para broncopneumonia fatal.

Na dúvida entre os três, grave um vídeo curto no celular.

Comeu o que não devia

Na gastrite aguda o vômito começa de repente e costuma trazer o que o cão comeu, grama por exemplo, com bile, espuma ou sangue. Um detalhe do Merck ajuda a reconhecer: o cão bebe muita água e vomita logo em seguida. Lixo revirado entra aqui. Para saber se o que ele comeu é tóxico, consulte a lista do que o cão não pode comer.

Enjoo no carro

A viagem para casa no dia da adoção pode terminar em vômito sem doença nenhuma. O enjoo de movimento dá náusea, baba e vômito, e os sinais costumam passar quando o carro para. O medo do carro pode provocar o mesmo com o veículo parado. Remédio para enjoo existe, e quem receita é o veterinário.

Filhote: vermes e parvovirose

Filhote com lombriga tem o pelo sem brilho, fica barrigudo e pode vomitar os vermes. Verme no vômito é motivo para rever o vermífugo com o veterinário, e o texto sobre frequência da vermifugação ajuda a preparar a conversa.

A parvovirose atinge sobretudo filhotes e adultos não vacinados. Começa com apatia, falta de apetite e febre, e em 1 a 2 dias vêm o vômito e a diarreia com sangue. Com tratamento adequado, de 68% a 92% dos cães sobrevivem, segundo o Merck.

O dado brasileiro é, na maior parte, de vira-lata. A Universidade de Caxias do Sul testou 125 cães de três cidades gaúchas entre janeiro de 2021 e novembro de 2022, e 77,6% eram SRD. O vírus apareceu em 29 dos 51 nunca vacinados, em 1 dos 49 com vacinação completa, nos 17 com o esquema pela metade e em 22 dos 24 filhotes de 1 a 4 meses. A maioria já chegou com gastroenterite, então os números não medem a parvovirose no Brasil. Medem a diferença que a vacina fez. O calendário está no guia de vacinas e vermífugo.

Veneno: chumbinho e remédio de gente

O chumbinho é um problema brasileiro. A Anvisa o define como produto clandestino, sem registro, feito em geral de agrotóxico desviado da lavoura, com aldicarbe em cerca de 50% das amostras analisadas. Comprar e vender é crime. Um estudo de 2022 da faculdade de veterinária da USP conta que esses venenos chegam ao animal misturados em carne, peixe, comida enlatada ou salsicha, e lista vômito, diarreia, salivação excessiva, pupila contraída, tremor e convulsão entre os sinais. O aldicarbe foi banido em outubro de 2012, e o estudo registra que a proibição ainda não fez os casos caírem.

Envenenar animal é maus-tratos. Na delegacia de crimes contra a fauna de Belo Horizonte, entre setembro de 2016 e setembro de 2018, a intoxicação esteve entre os tipos de crueldade mais registrados. O texto sobre maus-tratos e como denunciar mostra o caminho.

O outro veneno comum está na gaveta. Anti-inflamatórios e corticoides aparecem no Merck entre as causas de gastrite, e remédio entre as causas de úlcera no estômago, que dá vômito às vezes com sangue e fezes escuras. No hospital veterinário da USP, entre 1998 e 2000, remédio foi a primeira causa de intoxicação em cães (28,9% dos 203 casos), e 86,4% deles eram anti-inflamatórios. O dado tem mais de 20 anos: vale como alerta, não como retrato de hoje.

Cadela não castrada: piometra

A piometra é uma infecção do útero que o Merck descreve sobretudo em cadelas com mais de 5 anos, de 4 a 6 semanas depois do cio. Os sinais são abatimento, falta de apetite, mais sede, mais xixi e vômito. Pode sair secreção com pus, ou não sair nada e a barriga crescer. O quadro pode chegar rápido a choque e morte, e remédio à base de estrogênio ou progesterona está entre as causas. Se você adotou uma cadela adulta e não sabe se ela é castrada, diga isso ao veterinário.

O que observar em casa

Com o cachorro vomitando na sua frente, a memória falha. Anote:

  • Quando começou, o horário de cada episódio e a relação com a comida.
  • Se houve esforço, ou se a comida só escorregou para fora, e se antes veio tosse.
  • O que saiu: comida inteira, líquido amarelo, espuma, sangue vivo, borra de café, vermes, pedaço de brinquedo. Tire uma foto.
  • O jeito do cão: se atende quando chamado, se quer brincar, se fica deitado num canto. No estudo de Munique, era isso que separava os casos.
  • Apetite, água e fezes: se come, se vomita logo depois de beber, se há diarreia, sangue ou fezes pretas.
  • A barriga: estufada, dura, dolorida ao toque.
  • O que ele pode ter alcançado: lixo, brinquedo ou meia que sumiu, remédio, raticida, planta. Leve a embalagem, se houver.
  • A carteira de vacinação, a data do último vermífugo e, na cadela, a do último cio.

O que não fazer por conta

Não provoque vômito. A água oxigenada dada para o cão vomitar machuca: num estudo de 2017, ela causou lesão no estômago dos 6 cães saudáveis que a receberam, visível em 4 horas e pior em 24. O cão de comparação, que tomou o remédio veterinário para vomitar, teve biópsia normal. O Merck lista casos em que provocar vômito não é indicado, como convulsão e substância que fere o esôfago na volta. Quem decide é o veterinário.

Não dê remédio de gente, nem para vômito nem para dor. O anti-inflamatório pode ser a causa do problema.

Não tire a água. Para o Merck, a água nunca deve ser suspensa, salvo quando o cão está no soro, porque a desidratação piora. O que e quando comer, decide a consulta.

O que o veterinário costuma investigar

O que você anotou entra primeiro, junto com o exame da barriga, da boca e o exame retal, que pode mostrar sangue ou restos do que o cão não devia ter comido. O Merck considera o raio X adequado para a maioria dos cães que vomitam, porque mostra corpo estranho.

Sangue, urina e fezes costumam entrar porque vômito nem sempre é doença do estômago: rim, fígado, pâncreas e sistema nervoso também causam. Entre 213 cães encaminhados por vômito a um hospital de referência, só 43,7% dos diagnósticos eram digestivos, e o rim liderou as causas de fora do aparelho digestivo. Quando o vômito vai e volta por mais de 1 a 2 semanas, a versão do Merck para veterinários fala em investigar gastrite crônica, com exames como ultrassom, endoscopia e biópsia.

Nem todo cão precisa de tudo isso. Em Munique, a causa ficou desconhecida em 39 dos 99 cães, e os autores concluíram que o cão que só vomita e chega bem disposto pode melhorar só com tratamento dos sintomas.

Perguntas frequentes

Quantas vezes o cachorro pode vomitar antes de ir ao veterinário? Nenhuma fonte fixa um número que separe o caso tranquilo da emergência. O Merck pede exame detalhado quando o vômito passa de uma ou duas vezes por dia ou se arrasta, o que é consulta marcada, não necessariamente pronto-socorro. Com qualquer sinal da lista de emergência, vá agora, mesmo depois de um vômito só.

Meu cachorro comeu grama e vomitou. É normal? Comer planta é comum. Numa pesquisa sobre cães citada em 2021 por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis, 68% comiam planta todo dia ou toda semana, 9% pareciam doentes com frequência antes e 22% vomitavam com frequência depois. Sem relação clara entre mal-estar e planta, a conclusão foi que o hábito é inato. Se ele mudou e o vômito aumentou, conte na consulta.

Vômito amarelo de manhã é normal? O vômito de bile no começo do dia tem nome, síndrome do vômito bilioso, e é mal definido. Em 20 casos de um hospital universitário americano, o perfil mais comum foi o de cão jovem, SRD e macho castrado. Em 3 dos 20, o diagnóstico virou outra doença, uma delas câncer de estômago. Vômito amarelo que se repete é assunto de consulta.

Devo deixar o cachorro em jejum? A regra das 24 horas sem comida ainda está na página do Merck para tutores sobre vômito, revisada em 2018. A seção de parvovirose do mesmo manual, numa página atualizada em junho de 2026, diz que suspender comida e água até o vômito passar deixou de ser a regra, porque alimentar mais cedo se associa a melhora mais rápida. Água não se tira. A comida, o veterinário decide.

Fontes

  1. Todas acessadas em 22 set. 2026.
  2. WEBB, C. B. Vomiting in Dogs. Merck Veterinary Manual (tutores), 2018, atualizada em set. 2024. https://www.merckvetmanual.com/dog-owners/digestive-disorders-of-dogs/vomiting-in-dogs
  3. DEFARGES, A. et al. Disorders of the Stomach and Intestines in Dogs. Merck Veterinary Manual (tutores), atualizada em jun. 2026. https://www.merckvetmanual.com/dog-owners/digestive-disorders-of-dogs/disorders-of-the-stomach-and-intestines-in-dogs
  4. BLOIS, S. Gastritis in Small Animals. Merck Veterinary Manual, versão profissional, 2025. https://www.merckvetmanual.com/digestive-system/diseases-of-the-stomach-in-small-animals/gastritis-in-small-animals
  5. WALTERS, P. Disorders of the Esophagus in Dogs. Merck Veterinary Manual (tutores), atualizada em set. 2024. https://www.merckvetmanual.com/dog-owners/digestive-disorders-of-dogs/disorders-of-the-esophagus-in-dogs
  6. KUEHN, N. F. Tracheobronchitis (Bronchitis) in Dogs. Merck Veterinary Manual (tutores), atualizada em set. 2024. https://www.merckvetmanual.com/dog-owners/lung-and-airway-disorders-of-dogs/tracheobronchitis-bronchitis-in-dogs
  7. NEER, T. M. Motion Sickness in Dogs. Merck Veterinary Manual (tutores), atualizada em set. 2024. https://www.merckvetmanual.com/dog-owners/brain-spinal-cord-and-nerve-disorders-of-dogs/motion-sickness-in-dogs
  8. PEREGRINE, A. S. Gastrointestinal Parasites of Dogs. Merck Veterinary Manual (tutores), atualizada em maio 2026. https://www.merckvetmanual.com/dog-owners/digestive-disorders-of-dogs/gastrointestinal-parasites-of-dogs
  9. MEMON, M. A. Reproductive Disorders of Female Dogs. Merck Veterinary Manual (tutores), atualizada em set. 2024. https://www.merckvetmanual.com/dog-owners/reproductive-disorders-of-dogs/reproductive-disorders-of-female-dogs
  10. TEXTOR, J. What to Do in a Dog or Cat Emergency. Merck Veterinary Manual (tutores), 2025. https://www.merckvetmanual.com/special-pet-topics/emergencies/what-to-do-in-a-dog-or-cat-emergency
  11. ENSLEY, S. M. General Treatment of Poisoning. Merck Veterinary Manual (tutores), atualizada em set. 2024. https://www.merckvetmanual.com/special-pet-topics/poisoning/general-treatment-of-poisoning
  12. HOLZMANN, B. et al. Utility of diagnostic tests in vomiting dogs presented to an internal medicine emergency service. Frontiers in Veterinary Science, 2023. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9933778/
  13. ROSÉ, A.; NEIGER, R. Causes of vomiting in dogs and usefulness of clinical investigations. Tierärztliche Praxis Ausgabe K, 2013. https://europepmc.org/article/MED/23403783
  14. TRUYEN, L. H. et al. Canine parvovirus type 2 (CPV-2) serological and molecular patterns in dogs with viral gastroenteritis from southern Brazil. Brazilian Journal of Microbiology, 2024. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11153423/
  15. ANVISA. Chumbinho. Perguntas frequentes, 2020. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/acessoainformacao/perguntasfrequentes/agrotoxicos/chumbinho
  16. FUKUSHIMA, A. R. et al. Development, Optimization, and Validation of Forensic Analytical Method for Quantification of Anticholinesterase Pesticides in Biological Matrices from Suspected Cases of Animal Poisoning. Toxics, 2022. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9144076/
  17. GOMES, L. B. et al. Diagnosis of animal abuse: A Brazilian study. Preventive Veterinary Medicine, 2021. https://europepmc.org/article/MED/34246116
  18. XAVIER, F. G.; KOGIKA, M. M.; SPINOSA, H. S. Common causes of poisoning in dogs and cats in a Brazilian veterinary teaching hospital from 1998 to 2000. Veterinary and Human Toxicology, 2002. https://europepmc.org/article/MED/11931501
  19. NIEDZWECKI, A. H. et al. Effects of oral 3% hydrogen peroxide used as an emetic on the gastroduodenal mucosa of healthy dogs. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, 2017. https://europepmc.org/article/MED/27973761
  20. FERGUSON, L.; WENNOGLE, S. A.; WEBB, C. B. Bilious Vomiting Syndrome in Dogs: Retrospective Study of 20 Cases (2002-2012). Journal of the American Animal Hospital Association, 2016. https://europepmc.org/article/MED/27008323
  21. HART, B. L. et al. Characteristics of plant eating in domestic cats. Animals, 2021. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8300339/

Também em Cães

Conhece uma ONG que ficou de fora?

Mande o nome, a cidade e o link do site ou do Instagram. A gente confere se ela está ativa e inclui no guia.

Indicar uma ONG