
Coceira é sinal, não diagnóstico, e as causas mais comuns são parasitas, infecções e alergias. O veterinário investiga nesta ordem: pulga, sarna e outros parasitas, infecção por bactéria ou levedura, reação alimentar e, só no fim, dermatite atópica. O lugar do corpo ajuda: lombo e base do rabo lembram pulga, borda da orelha e cotovelo com coceira forte e repentina lembram sarna, e patas, rosto e axilas lembram alergia. Ferida úmida que surgiu de repente, orelha inchada, dor no ânus ou gente da casa também se coçando pedem veterinário sem esperar.
Quando é emergência
Nenhuma das diretrizes que lemos traz uma lista oficial de urgência para coceira. Os sinais abaixo são os que o manual veterinário Merck e as diretrizes que lemos ligam a quadros que não se resolvem em casa. Com qualquer um deles, procure o veterinário sem esperar para ver se passa:
- Ferida úmida e vermelha que surgiu de repente onde o cão lambe ou morde. É o "hot spot", que o manual descreve como consequência da própria coceira e que pede tratamento à parte.
- Orelha inchada e mole, como uma bolsa d'água. De tanto sacudir a cabeça, o cão pode romper um vaso, e o sangue se acumula na orelha. O tratamento costuma ser cirúrgico.
- Coceira muito forte que começou de repente, sobretudo depois de contato com outro cão, ou com gente da casa se coçando também. É o retrato da sarna sarcóptica, que passa de cão para cão.
- Dor ou esforço para fazer cocô, com o cão lambendo ou mordendo o ânus. Pelo Merck, é sinal de doença da glândula anal.
- Pele ruim com abatimento, febre ou emagrecimento. São sinais que a diretriz LeishVet lista na leishmaniose, uma das doenças a descartar no Brasil.
Queda de pelo, descamação, cheiro ruim ou secreção na pele, que o Merck associa a infecção, pedem consulta marcada, não pronto-socorro. Se não souber onde há atendimento, a página de serviços por cidade mostra veterinários perto de você.
O que pode ser
Coceira é sinal, não diagnóstico, e as causas mais comuns são parasitas, infecções e alergias. A diretriz internacional de dermatite atópica, a ICADA, de 2015, organiza a investigação nesta ordem:
- pulga;
- outros parasitas, sobretudo a sarna sarcóptica;
- infecção por bactéria ou levedura;
- reação alimentar;
- dermatite atópica, que só se confirma depois de descartadas as outras.
A ordem existe porque as causas se somam. Num levantamento de Santa Maria (RS), de março de 2005 a junho de 2008, 31 dos 393 cães com diagnóstico fechado tinham duas doenças de pele independentes, e 56 tinham ao menos uma doença secundária. Achar uma causa não encerra a busca.
Onde o cão coça
O lugar do corpo é pista, não diagnóstico. A tabela junta o que descrevem a ICADA, o Merck e a ESCCAP, diretriz europeia de parasitas externos.
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Onde coça |
O que costuma indicar |
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Lombo, base do rabo, parte de trás e de dentro das coxas |
Alergia à picada de pulga |
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Borda da orelha, cotovelo, jarrete (a dobra da pata de trás), barriga e peito, com coceira forte e repentina |
Sarna sarcóptica |
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Patas, rosto, parte interna da orelha, axilas, virilha e barriga |
Dermatite atópica ou reação alimentar |
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Ouvido com cera marrom, cabeça sacudindo |
Ácaro de ouvido, otite ou alergia |
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Bumbum arrastado no chão, lambedura no ânus |
Glândula anal ou alergia, e não necessariamente verme |
Pulga
Cão sem alergia pode ter pulga e coçar só de vez em quando, segundo a ESCCAP, enquanto o alérgico reage à saliva do inseto e coça muito com poucas pulgas à vista, porque as tira ao se lamber.
"Pulga é coisa de verão" é regra de clima temperado. O Merck, americano, põe o pico da alergia no fim do verão. A ICADA diz que em clima tropical e subtropical a pulga pode ser problema o ano todo. Paz e colegas examinaram todo mês 88 cães mantidos ao ar livre no Sudeste, de agosto de 2011 a julho de 2012. A única pulga achada foi a do gato, Ctenocephalides felis felis, e a infestação subiu nos meses mais secos: julho, agosto e setembro. É um grupo, numa região, em um ano. Basta para desconfiar do calendário dos manuais.
Outro sinal indireto é a tênia Dipylidium caninum, que a ESCCAP trata como forte indicação de pulga atual ou recente. A frequência do vermífugo está no post sobre vermifugação.
O controle de pulga vale para a casa inteira, e a comparação entre formatos está no post sobre pipeta, coleira ou comprimido. A ICADA inclui todos os cães e gatos, e a ESCCAP lembra os gatos, que os tutores às vezes esquecem. Só que produto de cachorro não vai no gato: alguns antipulgas de uso tópico aprovados para cão podem ser tóxicos para ele. O que usar em cada animal, quem decide é o veterinário.
Sarna: são duas, e só uma costuma coçar
Sarna sarcóptica. Coça muito e passa de cão para cão, por contato ou por cama e escova. Para a ESCCAP, a borda da orelha é o lugar mais atingido; o Merck acrescenta cotovelos, jarretes, barriga e peito. Os sinais surgem de 10 dias a 8 semanas depois do contato, e todos os cães que conviveram com o doente entram no tratamento. Em gente, dá coceira passageira, porque o ácaro de animal não se multiplica na pele humana, explica o CDC. Quem da casa começar a se coçar deve procurar o médico.
É uma sarna fácil de confundir. O raspado de pele pode ter sensibilidade de só 20%, e o exame de sangue só acusa a partir de 5 semanas de infestação, segundo a ESCCAP. Segundo o Merck, é comum tratar sarna como alergia por semanas ou meses, e por isso a ICADA recomenda tratamento de teste no cão com muita coceira. Uma pista é o reflexo orelha-pata: o veterinário esfrega a ponta da orelha e observa se a pata de trás do mesmo lado faz o movimento de coçar. Num estudo de 2001 com 588 cães, ele apareceu em 82% dos que tinham sarna e em 6,2% dos outros. É manobra de consultório, não teste caseiro.
Sarna demodécica. Em pequeno número, o ácaro Demodex canis faz parte da pele normal do cão e passa da mãe aos filhotes nas primeiras 72 horas de vida. A doença não é contagiosa e não pega em gente, e na forma localizada a coceira costuma faltar ou ser leve, segundo o Merck. Em João Pessoa (PB), de 2014 a 2016, foi a doença parasitária de pele mais diagnosticada, com 42 de 76 casos, à frente da sarcóptica, com 18.
Ácaro de ouvido. Deixa cera marrom e faz o animal coçar e esfregar a orelha. Pela ESCCAP, é mais comum em filhote e em gato, e passa do cão para o gato, provavelmente pelo contato próximo.
Infecção por bactéria ou levedura
Queda de pelo, descamação, cheiro e secreção são os sinais que o Merck associa à infecção, e lamber ou esfregar patas e rosto é comum quando bactéria e levedura aparecem juntas. A levedura é a Malassezia. Mancha de saliva no pelo indica lambedura excessiva e costuma andar com ela, segundo a ICADA.
A infecção em geral não é o começo da história: a piodermite por estafilococo, diz a mesma diretriz, é na maioria dos casos secundária a outra doença. O veterinário confirma num exame de lâmina da pele, trata e vê o que sobra. Se a coceira some, a causa era a infecção; se continua, a suspeita passa para alergia. A micose de pele, a dermatofitose, também entra aqui, com coceira que varia de um animal para outro, e passa para gente.
Reação alimentar
"Alergia alimentar é a causa mais comum de coceira" não se sustenta. A revisão de Olivry e Mueller, de 2017, achou reação alimentar na pele em 1% a 2% dos cães atendidos por qualquer motivo e em 9% a 40% dos cães com coceira, faixa que depende de quem foi estudado. Outra revisão dos dois, de 2019, mostra início de antes de 1 ano até os 13 anos, sobretudo como infecção de pele por bactéria, otite ou quadro igual ao da atopia.
Exame de sangue não resolve: a dosagem de anticorpos contra alimentos mostrou baixa repetibilidade numa terceira revisão, também de 2017. O método é a dieta de eliminação, com uma dieta única por semanas e depois a volta à antiga, montada pelo veterinário. O prazo está no guia trocar de ração sem diarreia. Os dois autores das três revisões declaram financiamento de pesquisa ou honorários de uma fabricante de ração.
Dermatite atópica
É a alergia ao ambiente: ácaro de poeira, pólen, mofo. Pela ICADA, aparece como coçar, esfregar, mastigar, lamber demais, arrastar o bumbum e sacudir a cabeça, sobretudo no rosto, dentro da orelha, na barriga, nas axilas, na virilha e nas patas. Coceira de estação sugere pólen; o ano inteiro, ácaro de poeira ou alimento. Costuma começar entre 6 meses e 3 anos e é doença crônica, que pede acompanhamento pela vida toda, diz o Merck.
O número de 10% a 15% de cães atópicos circula sem fonte que tenhamos achado. O Merck diz apenas que a frequência, dentro de cada raça, depende da genética e da região. E, num cão adulto que começou a coçar agora, a idade não confirma nem descarta atopia ou alimento.
O que muda no Brasil
O quadro varia de cidade para cidade. Em Santa Maria, de 2005 a 2008, as doenças alérgicas lideraram, com 37,8% dos diagnósticos, e a alergia à pulga sozinha respondeu por 16,5%, contra 7,0% num levantamento britânico de 2006, segundo a comparação feita pelos próprios autores. Em João Pessoa, de 2014 a 2016, as parasitárias vieram na frente, com 35,35%, e as alérgicas ficaram com 20%. Os dois contam cães levados a atendimento veterinário, não a população.
Vira-lata também coça. Na Inglaterra, o projeto VetCompass achou menos doença de pele nos mestiços do que nos cães de raça (11,9% contra 16,5%, com dados de 2009 a 2013). Mesmo assim, os sem raça definida foram 27,1% dos cães com doença de pele em Santa Maria e 37,13% em João Pessoa.
Em cão resgatado, parasita externo aparece com frequência. Num estudo publicado em 2025 sobre cães resgatados das áreas de afundamento do solo em Maceió, pulga, carrapato ou ácaro responderam por 14,2% dos casos de doença em cães (46 de 324), e 80,4% desses casos foram em filhotes. Os primeiros dias do animal adotado são uma boa hora para essa checagem.
E há pele ruim que não coça. Na leishmaniose, a diretriz LeishVet, de 2011, descreve descamação sem coceira, com emagrecimento e unhas que crescem demais, e o Ministério da Saúde lembra que o cão é o principal reservatório do parasita nas cidades brasileiras. Também é caso de veterinário.
O que observar em casa
Procure pulga com pente fino, o método mais sensível segundo a ESCCAP. Passe no lombo e na base do rabo e bata o que sair num papel branco úmido. Fezes de pulga são pontinhos pretos que, no papel molhado, ganham um anel vermelho de sangue. Não achar nada não descarta alergia à pulga.
Faça um diário de coceira até a consulta, com:
- data e hora de cada crise;
- onde ele coça, lambe ou morde, usando a tabela acima;
- como: pata, lambida, mordida, esfregando no chão, sacudindo a cabeça, arrastando o bumbum;
- uma nota de gravidade, sempre no mesmo formato;
- quem mais coça na casa, bicho ou gente;
- o que mudou: ração, petisco, xampu, cão novo, passeio em lugar diferente;
- apetite, peso, disposição e remédios que ele já recebeu.
A nota tem base: existe escala de coceira validada para o tutor. Num dos estudos de validação, de 2009, 90 de 305 donos de cães sem doença de pele deram nota acima de zero: algum coçar é normal. A faixa normal de 0 a 1,9 vale para a escala visual, uma linha em que o tutor marca a intensidade. A nota falada de 0 a 10, validada em 2022, não é intercambiável com ela. Escolha um formato e fique nele.
O que não fazer por conta
- Corticoide. Alivia muita coceira, e por isso tenta. O Merck o contraindica na sarna demodécica, considera inadequado usá-lo na coceira por infecção e lista fome, sede, urina em excesso e risco de diabetes entre os efeitos.
- Ivermectina. Segundo o Merck, na dose usada para sarna ela é contraindicada em raças sensíveis e exige checar dirofilariose antes. A mutação por trás dessa sensibilidade já foi achada em mestiços em outros países, e o estudo brasileiro de 2015 que lemos testou só cães de raça.
- Antialérgico de farmácia. A parte do Merck para tutores diz que a pesquisa não apoia o anti-histamínico em cão; a ICADA fala em benefício pequeno e limitado em alguns cães. Nenhuma das duas autoriza dar por conta.
- Teste de alergia por pelo ou saliva. Num estudo de 2019, amostras de cão alérgico, cão saudável, pelo sintético e água deram resultados que não diferiram do acaso.
- Trocar de ração toda semana. Não testa alergia nenhuma.
O que o veterinário costuma investigar
Conforme o caso, a investigação cabe numa consulta ou se estende por uma série delas, avisa a ICADA. Depois do histórico, com o seu diário, e do exame, vêm os testes de consultório: pente, raspado, pelos arrancados para o microscópio e lâmina da pele e do ouvido. Pulga e sarna podem receber tratamento de teste mesmo sem o parasita à vista, a infecção é tratada e a coceira que sobra é reavaliada, e se ela dura o ano todo ou vem com sinais digestivos entra a dieta de eliminação. A atopia fica para o fim. Teste de alergia, de pele ou de sangue, não é triagem: serve depois, para montar a imunoterapia.
Perguntas frequentes
Cachorro se coçando muito e nenhuma pulga à vista: pode ser pulga? Pode. O alérgico coça muito com poucas pulgas, e a ICADA orienta o veterinário a iniciar o controle de pulga mesmo quando ela não aparece.
Cachorro coçando e lambendo a pata: o que pode ser? Pata é lugar típico da atopia e da reação alimentar, e a mancha de saliva no pelo costuma vir com levedura. Marque consulta e leve o diário.
Cachorro coçando a orelha: é otite? Pode ser. Otite externa foi o diagnóstico mais frequente, 10,2%, entre 3.884 cães atendidos em clínicas gerais inglesas no VetCompass. Cera marrom lembra ácaro, crosta na borda da orelha com coceira forte lembra sarna, e orelha inchada é urgência.
A sarna do cachorro pega em gente? A sarcóptica dá coceira passageira em quem convive com o cão. A demodécica não pega. A micose de pele também passa para gente.
Em quanto tempo a coceira passa? Nenhuma fonte que lemos promete prazo. O diagnóstico pode levar mais de uma consulta, e a dermatite atópica é crônica: pede acompanhamento pela vida toda.
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