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Gatos

Esporotricose em gatos: o que é, como pega e o que fazer

Ferida no focinho que não fecha, num gato que sai de casa, pode ser esporotricose, uma micose que passa para pessoas pelo arranhão. Tem tratamento. Veja os sinais, os cuidados em casa e o que a lei manda notificar.

Sintoma: o que pode serSaúde
9 min de leitura
Gato tigrado cinza de olhos verdes parado entre a palha seca e o capim, olhando para a câmera
A esporotricose passa de gato para gato pelo arranhão e pela mordida. Foto: Jakub Hałun, Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Resposta curta

Esporotricose é uma micose causada pelo fungo Sporothrix, e no Brasil mais de 90% dos casos em gato vêm do Sporothrix brasiliensis, que passa de gato para gato e de gato para gente pelo arranhão, pela mordida e pelo contato com a ferida. O sinal típico é ferida funda no focinho, na cabeça ou nas patas, com sangue ou pus, que não cicatriza. Tem tratamento, longo, com o veterinário. Enquanto isso, o gato fica isolado dentro de casa, você usa luvas para lidar com ele e lava as mãos. Soltar o gato na rua ou enterrar o corpo num terreno espalha o fungo. Desde março de 2025, o caso humano é de notificação compulsória em todo o país.

Quando é emergência

Ferida que não fecha num gato pede consulta marcada logo, sem esperar a ferida "dar uma melhorada". O Ministério da Saúde pede que todo animal com suspeita seja isolado de pessoas e de outros animais e levado ao veterinário para confirmar o diagnóstico.

Vá no mesmo dia se, além da ferida, aparecer:

  • Falta de ar, ou espirros com secreção no nariz.
  • Abatimento, febre ou gato que parou de comer. A diretriz brasileira de 2021, escrita por um grupo técnico ligado à Sociedade Internacional de Micologia Humana e Animal (ISHAM), com autores da Fiocruz, associa esses sinais à forma disseminada, quando o fungo já chegou a órgãos internos.
  • Ferida que expõe músculo ou osso, ou que tem larvas (bicheira).

Nas outras situações, marque a consulta para os próximos dias. Na diretriz de 2021, a lesão no nariz e os sinais respiratórios aparecem ligados a falha de tratamento e morte, por isso o gato que espirra com ferida no focinho não deve esperar. Se não souber onde há atendimento, a página de serviços por cidade mostra veterinários perto de você.

Se você se arranhou

Lave o arranhão ou a mordida na hora, com água e sabão, e procure atendimento médico, como recomenda a diretriz de 2021. Conte que o gato tem ferida suspeita. Na pessoa, o Ministério da Saúde descreve a lesão inicial como parecida com picada de inseto, que pode virar ferida ou caroços em fila pelo braço ou pela perna, seguindo o caminho dos vasos linfáticos, e diz que a cura sozinha é rara. Os sinais podem aparecer de uma semana até seis meses depois. O especialista indicado é o dermatologista ou o infectologista, e o SUS oferece o tratamento de graça.

O que pode ser

O que é a esporotricose

É uma micose causada por fungos do gênero Sporothrix. No ambiente, o fungo vive na terra rica em matéria orgânica, em espinho, em casca de árvore e em planta em decomposição. Por isso a doença ganhou o apelido de "doença do jardineiro" ou "da roseira", lembra a Fiocruz. Hoje ela é mais comum nas regiões metropolitanas, transmitida por gato.

A virada tem nome. A espécie Sporothrix brasiliensis foi descrita em 2007, e no Brasil responde por mais de 90% dos casos em gente e em gato, segundo a diretriz de 2021. O surto atual começou em 1998, no estado do Rio de Janeiro. Só um centro, o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, diagnosticou 5.113 gatos entre 1998 e 2017, e os autores avisam que o número não mostra o tamanho real da doença. A diretriz registra casos em gato em todos os estados do Sul e do Sudeste e, nos cinco anos anteriores à publicação, em estados do Centro-Oeste, do Nordeste e do Norte.

Como pega

O gato se contamina sobretudo brigando com outro gato doente: arranhão, mordida e contato com o pus da ferida. O fungo aparece em grande quantidade na ferida do gato e também nas unhas e na boca, explica a diretriz de 2021. A Fiocruz acrescenta que, embora não seja comum, um gato sem ferida pode carregar o fungo nas unhas.

O perfil que mais aparece nos estudos é o do macho jovem, sem castração, que sai de casa. A diretriz europeia da ABCD, de 2013, descreve a doença principalmente nesse gato e lembra que as feridas surgem onde a briga acerta: cabeça, patas e base da cauda. Na diretriz brasileira, a maioria dos casos vinha de casas com pelo menos 2 gatos.

Para a pessoa, o caminho é o mesmo: arranhão, mordida ou pele em contato com a ferida. O Merck Veterinary Manual registra que a transmissão do gato para a pessoa já foi descrita sem ferimento aparente, e cita os surtos brasileiros: neles, quem cuidava de gato doente tinha 4 vezes mais chance de se infectar do que as outras pessoas da mesma casa.

E o cachorro? Ele também adoece, mas tem pouco fungo na ferida. A Fiocruz diagnosticou 244 cães no Rio entre 1998 e 2014, e a revisão de Gremião e colegas, de 2017, não achou relato de transmissão de cão para pessoa nesse surto.

Os sinais no gato

  • Feridas que não cicatrizam, fundas, com sangue ou pus. É o sinal mais observado, segundo a Fiocruz.
  • Lugar preferido: focinho, orelhas e patas, segundo o Ministério da Saúde. No texto de 2021, o destaque é o nariz, às vezes com aspecto de tumor.
  • Caroços que abrem e soltam secreção, e crostas.
  • Áreas sem pelo, que o Ministério da Saúde também cita.
  • Espirro, secreção no nariz e falta de ar. A diretriz de 2021 chama esses sinais de frequentes e avisa que podem vir antes da ferida, ou sem ferida nenhuma. A ABCD calcula sinais respiratórios em cerca de um terço dos casos.

Um detalhe engana. Segundo a diretriz de 2021, o gato costuma continuar comendo e brincando mesmo com feridas espalhadas pelo corpo. Gato animado não descarta nada.

Do arranhão aos primeiros sinais, o tempo médio é de 14 dias, mas pode passar de meses.

O que mais pode ser

Ferida em gato que sai de casa tem outras explicações, e a diretriz de 2021 lista as principais para o veterinário separar: abscesso de briga e infecção bacteriana de pele, carcinoma de células escamosas (um câncer de pele), dermatose eosinofílica, outras micoses e até leishmaniose tegumentar. A ABCD dá uma pista que vale para o tutor: suspeite de esporotricose quando a ferida de briga não melhora com o antibiótico.

O que observar em casa

Leve à consulta estas respostas, de preferência anotadas:

  • Desde quando existe cada ferida, e se ela cresceu, abriu ou mudou de lugar.
  • Fotos datadas das lesões, tiradas sem pegar o gato no colo.
  • Espirros e respiração: quantas vezes por dia, com ou sem secreção.
  • Apetite, peso e disposição.
  • Se o gato sai de casa e se briga com gatos da rua.
  • Outros animais da casa com feridas, e pessoas com lesão de pele que não fecha.
  • Qualquer pomada ou remédio já passado. Antifúngico usado antes da consulta reduz a sensibilidade dos exames, avisa a diretriz de 2021.

Cuidados enquanto espera e durante o tratamento

As regras abaixo vêm do Ministério da Saúde, da Fiocruz e da diretriz de 2021.

  • Use luvas para pegar, medicar ou limpar o gato, e lave as mãos com sabão depois. Mexa no animal só o necessário, pede a Fiocruz.
  • Mantenha o gato isolado num cômodo, longe dos outros animais e, como pede o Ministério, principalmente das crianças.
  • Lave com água e sabão potes, brinquedos e objetos dele e desinfete todo dia. Os lugares onde ele fica devem ser descontaminados, de preferência com hipoclorito de sódio. Pergunte ao veterinário como diluir.
  • Não solte o gato na rua. Gato doente na rua briga, arranha e espalha o fungo. Com menos fungo nas feridas, o gato em tratamento não parece pesar na transmissão, conforme a diretriz de 2021. Tratar protege a sua casa e o bairro.
  • Não pare o tratamento quando a ferida fechar. Entre 30% e 40% dos tutores abandonam o tratamento, e a maioria para justamente quando vê a pele cicatrizada, segundo a diretriz. A doença volta.

Abandonar não resolve

A Fiocruz é direta: o animal com suspeita de esporotricose não deve ser abandonado, maltratado nem sacrificado, porque a doença tem tratamento e cura. O Ministério da Saúde repete que animal com suspeita não deve ser abandonado. O gato largado continua doente, só que agora brigando com outros gatos e longe de qualquer tratamento.

Quem procura o centro de controle de zoonoses com medo de que o gato seja morto pode ler o que diz a Lei 14.228/2021 no post sobre o que o centro de zoonoses pode fazer com um animal recolhido.

Se o gato morrer

Não enterre o corpo no quintal nem em terreno baldio, e não jogue no lixo. Isso mantém o fungo no solo, explica o Ministério da Saúde. A orientação é levar o corpo ao veterinário o quanto antes, para incineração. A diretriz de 2021 detalha o que o serviço faz: o corpo vai num saco branco com símbolo de risco biológico e fica refrigerado até a incineração. Se não conseguir esse encaminhamento, pergunte ao centro de zoonoses ou à vigilância em saúde do seu município como entregar o corpo.

O que o veterinário costuma investigar

O sinal sozinho não fecha o diagnóstico, por isso o exame é de laboratório. Este é o caminho descrito na diretriz de 2021:

  • Exame de ferida no microscópio (citologia). É barato, rápido e muito usado em gato, porque a ferida felina tem muito fungo. A sensibilidade varia de 52,6% a 87% conforme o estudo, então resultado negativo não descarta a doença.
  • Cultura do fungo. É o exame de referência e confirma o diagnóstico, mas o fungo cresce devagar: o resultado leva em média 30 dias.
  • Biópsia, com sedação, quando a ferida pede.
  • Sorologia (ELISA), disponível em laboratórios particulares, que procura anticorpo contra o fungo.
  • Exames de sangue, para ver o estado geral antes e durante o tratamento.
  • FIV e FeLV. A diretriz de 2021 registra cura com ou sem essas infecções, e a ABCD reforça a prevenção no gato que tem uma delas.

Quanto tempo dura o tratamento

O tratamento é longo, diário e definido pelo veterinário. Pela diretriz de 2021, o isolamento dura do começo ao fim, de algumas semanas a meses, com tempo mediano de 4 meses nos estudos que ela cita. O Merck registra que, com frequência, o gato precisa de mais de 12 meses. A cura é clínica, quando todos os sinais somem, e o remédio continua por pelo menos 1 mês depois disso, e por 2 meses no gato que tinha lesão no nariz ou sinais respiratórios.

Depois da cura, a diretriz recomenda castrar o gato. A castração reduz a vontade de sair, caçar e brigar, e com ela a chance de pegar de novo. O guia de castração explica como funciona o procedimento.

A eutanásia só entra quando o gato está em estado grave ou não responde ao tratamento, e a diretriz é explícita: a indicação é sempre do veterinário, depois de avaliação cuidadosa.

Perguntas frequentes

Esporotricose tem cura? Tem. Pela Fiocruz, a doença tem tratamento e cura, e a ABCD considera o prognóstico bom quando o tratamento vai até o fim. O prognóstico piora na forma disseminada e quando o tratamento é interrompido antes da hora. A Fiocruz avisa que alguns gatos voltam a ter a doença depois de curados, por isso o gato curado não deve ter acesso à rua.

É obrigatório notificar? O caso humano, sim. A Portaria GM/MS nº 6.734, de 18 de março de 2025, incluiu a esporotricose humana na Lista Nacional de Notificação Compulsória, com notificação semanal pelos serviços de saúde públicos e privados. Quem notifica é o serviço que atende a pessoa, não você. O caso no animal não está nessa lista nacional. A notificação animal depende de regra estadual ou municipal: no estado do Rio de Janeiro, a notificação compulsória existe desde 2013, segundo a Fiocruz, e em Salvador a de casos humanos e animais começou em 2018. Na dúvida, o centro de zoonoses do seu município informa como funciona aí.

Passa pela saliva ou pelo pelo? A principal forma de transmissão é o arranhão, responde a Fiocruz. Já a diretriz de 2021 acha improvável, mas não descartada, a ideia de que o gato saudável espalhe o fungo pelo pelo. O que pesa é a ferida, a unha e a mordida do gato doente.

Gata doente passa para os filhotes? Pela placenta, não há relato, segundo a Fiocruz. Mas o filhote recém-nascido que mama pode se infectar no contato direto com a mãe doente. A ninhada também precisa de avaliação.

Como evitar que o meu gato pegue? Gato dentro de casa é a medida que a ABCD e a diretriz brasileira recomendam, porque corta a briga com gato doente. A castração ajuda pelo mesmo motivo. Para manter o gato dentro de casa com segurança, o guia de tela na janela mostra como proteger janelas e varandas.

Fontes

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Esporotricose humana. Saúde de A a Z. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/e/esporotricose-humana. Acesso em 5 nov. 2026.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Esporotricose humana: orientações para os donos de animais. Saúde de A a Z. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/e/esporotricose-humana/orientacoes-para-os-donos-de-animais. Acesso em 5 nov. 2026.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 6.734, de 18 de março de 2025. Inclui a esporotricose humana na Lista Nacional de Notificação Compulsória de Doenças, Agravos e Eventos de Saúde Pública. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2025/prt6734_31_03_2025.html. Acesso em 5 nov. 2026.
  4. FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (Fiocruz). Esporotricose. Página especial. Disponível em: https://fiocruz.br/esporotricose. Acesso em 5 nov. 2026.
  5. FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (Fiocruz). Esporotricose: perguntas e respostas. Respostas revisadas em 22 set. 2022. Disponível em: https://fiocruz.br/esporotricose-perguntas-e-respostas. Acesso em 5 nov. 2026.
  6. GREMIÃO, I. D. F.; MARTINS DA SILVA DA ROCHA, E.; MONTENEGRO, H. et al. Guideline for the management of feline sporotrichosis caused by Sporothrix brasiliensis and literature revision. Brazilian Journal of Microbiology, v. 52, p. 107-124, 2021. DOI: 10.1007/s42770-020-00365-3. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7966609/. Acesso em 5 nov. 2026.
  7. GREMIÃO, I. D.; MIRANDA, L. H.; REIS, E. G.; RODRIGUES, A. M.; PEREIRA, S. A. Zoonotic epidemic of sporotrichosis: cat to human transmission. PLoS Pathogens, v. 13, n. 1, e1006077, 2017. DOI: 10.1371/journal.ppat.1006077. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5245785/. Acesso em 5 nov. 2026.
  8. LLORET, A.; HARTMANN, K.; PENNISI, M. G. et al. Sporotrichosis in cats: ABCD guidelines on prevention and management. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 15, n. 7, p. 619-623, 2013. DOI: 10.1177/1098612X13489225. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11148953/. Acesso em 5 nov. 2026.
  9. MERCK VETERINARY MANUAL. Sporotrichosis in Animals. Versão para profissionais. Disponível em: https://www.merckvetmanual.com/infectious-diseases/fungal-infections/sporotrichosis-in-animals. Acesso em 5 nov. 2026.

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