
Esporotricose é uma micose causada pelo fungo Sporothrix, e no Brasil mais de 90% dos casos em gato vêm do Sporothrix brasiliensis, que passa de gato para gato e de gato para gente pelo arranhão, pela mordida e pelo contato com a ferida. O sinal típico é ferida funda no focinho, na cabeça ou nas patas, com sangue ou pus, que não cicatriza. Tem tratamento, longo, com o veterinário. Enquanto isso, o gato fica isolado dentro de casa, você usa luvas para lidar com ele e lava as mãos. Soltar o gato na rua ou enterrar o corpo num terreno espalha o fungo. Desde março de 2025, o caso humano é de notificação compulsória em todo o país.
Quando é emergência
Ferida que não fecha num gato pede consulta marcada logo, sem esperar a ferida "dar uma melhorada". O Ministério da Saúde pede que todo animal com suspeita seja isolado de pessoas e de outros animais e levado ao veterinário para confirmar o diagnóstico.
Vá no mesmo dia se, além da ferida, aparecer:
- Falta de ar, ou espirros com secreção no nariz.
- Abatimento, febre ou gato que parou de comer. A diretriz brasileira de 2021, escrita por um grupo técnico ligado à Sociedade Internacional de Micologia Humana e Animal (ISHAM), com autores da Fiocruz, associa esses sinais à forma disseminada, quando o fungo já chegou a órgãos internos.
- Ferida que expõe músculo ou osso, ou que tem larvas (bicheira).
Nas outras situações, marque a consulta para os próximos dias. Na diretriz de 2021, a lesão no nariz e os sinais respiratórios aparecem ligados a falha de tratamento e morte, por isso o gato que espirra com ferida no focinho não deve esperar. Se não souber onde há atendimento, a página de serviços por cidade mostra veterinários perto de você.
Se você se arranhou
Lave o arranhão ou a mordida na hora, com água e sabão, e procure atendimento médico, como recomenda a diretriz de 2021. Conte que o gato tem ferida suspeita. Na pessoa, o Ministério da Saúde descreve a lesão inicial como parecida com picada de inseto, que pode virar ferida ou caroços em fila pelo braço ou pela perna, seguindo o caminho dos vasos linfáticos, e diz que a cura sozinha é rara. Os sinais podem aparecer de uma semana até seis meses depois. O especialista indicado é o dermatologista ou o infectologista, e o SUS oferece o tratamento de graça.
O que pode ser
O que é a esporotricose
É uma micose causada por fungos do gênero Sporothrix. No ambiente, o fungo vive na terra rica em matéria orgânica, em espinho, em casca de árvore e em planta em decomposição. Por isso a doença ganhou o apelido de "doença do jardineiro" ou "da roseira", lembra a Fiocruz. Hoje ela é mais comum nas regiões metropolitanas, transmitida por gato.
A virada tem nome. A espécie Sporothrix brasiliensis foi descrita em 2007, e no Brasil responde por mais de 90% dos casos em gente e em gato, segundo a diretriz de 2021. O surto atual começou em 1998, no estado do Rio de Janeiro. Só um centro, o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, diagnosticou 5.113 gatos entre 1998 e 2017, e os autores avisam que o número não mostra o tamanho real da doença. A diretriz registra casos em gato em todos os estados do Sul e do Sudeste e, nos cinco anos anteriores à publicação, em estados do Centro-Oeste, do Nordeste e do Norte.
Como pega
O gato se contamina sobretudo brigando com outro gato doente: arranhão, mordida e contato com o pus da ferida. O fungo aparece em grande quantidade na ferida do gato e também nas unhas e na boca, explica a diretriz de 2021. A Fiocruz acrescenta que, embora não seja comum, um gato sem ferida pode carregar o fungo nas unhas.
O perfil que mais aparece nos estudos é o do macho jovem, sem castração, que sai de casa. A diretriz europeia da ABCD, de 2013, descreve a doença principalmente nesse gato e lembra que as feridas surgem onde a briga acerta: cabeça, patas e base da cauda. Na diretriz brasileira, a maioria dos casos vinha de casas com pelo menos 2 gatos.
Para a pessoa, o caminho é o mesmo: arranhão, mordida ou pele em contato com a ferida. O Merck Veterinary Manual registra que a transmissão do gato para a pessoa já foi descrita sem ferimento aparente, e cita os surtos brasileiros: neles, quem cuidava de gato doente tinha 4 vezes mais chance de se infectar do que as outras pessoas da mesma casa.
E o cachorro? Ele também adoece, mas tem pouco fungo na ferida. A Fiocruz diagnosticou 244 cães no Rio entre 1998 e 2014, e a revisão de Gremião e colegas, de 2017, não achou relato de transmissão de cão para pessoa nesse surto.
Os sinais no gato
- Feridas que não cicatrizam, fundas, com sangue ou pus. É o sinal mais observado, segundo a Fiocruz.
- Lugar preferido: focinho, orelhas e patas, segundo o Ministério da Saúde. No texto de 2021, o destaque é o nariz, às vezes com aspecto de tumor.
- Caroços que abrem e soltam secreção, e crostas.
- Áreas sem pelo, que o Ministério da Saúde também cita.
- Espirro, secreção no nariz e falta de ar. A diretriz de 2021 chama esses sinais de frequentes e avisa que podem vir antes da ferida, ou sem ferida nenhuma. A ABCD calcula sinais respiratórios em cerca de um terço dos casos.
Um detalhe engana. Segundo a diretriz de 2021, o gato costuma continuar comendo e brincando mesmo com feridas espalhadas pelo corpo. Gato animado não descarta nada.
Do arranhão aos primeiros sinais, o tempo médio é de 14 dias, mas pode passar de meses.
O que mais pode ser
Ferida em gato que sai de casa tem outras explicações, e a diretriz de 2021 lista as principais para o veterinário separar: abscesso de briga e infecção bacteriana de pele, carcinoma de células escamosas (um câncer de pele), dermatose eosinofílica, outras micoses e até leishmaniose tegumentar. A ABCD dá uma pista que vale para o tutor: suspeite de esporotricose quando a ferida de briga não melhora com o antibiótico.
O que observar em casa
Leve à consulta estas respostas, de preferência anotadas:
- Desde quando existe cada ferida, e se ela cresceu, abriu ou mudou de lugar.
- Fotos datadas das lesões, tiradas sem pegar o gato no colo.
- Espirros e respiração: quantas vezes por dia, com ou sem secreção.
- Apetite, peso e disposição.
- Se o gato sai de casa e se briga com gatos da rua.
- Outros animais da casa com feridas, e pessoas com lesão de pele que não fecha.
- Qualquer pomada ou remédio já passado. Antifúngico usado antes da consulta reduz a sensibilidade dos exames, avisa a diretriz de 2021.
Cuidados enquanto espera e durante o tratamento
As regras abaixo vêm do Ministério da Saúde, da Fiocruz e da diretriz de 2021.
- Use luvas para pegar, medicar ou limpar o gato, e lave as mãos com sabão depois. Mexa no animal só o necessário, pede a Fiocruz.
- Mantenha o gato isolado num cômodo, longe dos outros animais e, como pede o Ministério, principalmente das crianças.
- Lave com água e sabão potes, brinquedos e objetos dele e desinfete todo dia. Os lugares onde ele fica devem ser descontaminados, de preferência com hipoclorito de sódio. Pergunte ao veterinário como diluir.
- Não solte o gato na rua. Gato doente na rua briga, arranha e espalha o fungo. Com menos fungo nas feridas, o gato em tratamento não parece pesar na transmissão, conforme a diretriz de 2021. Tratar protege a sua casa e o bairro.
- Não pare o tratamento quando a ferida fechar. Entre 30% e 40% dos tutores abandonam o tratamento, e a maioria para justamente quando vê a pele cicatrizada, segundo a diretriz. A doença volta.
Abandonar não resolve
A Fiocruz é direta: o animal com suspeita de esporotricose não deve ser abandonado, maltratado nem sacrificado, porque a doença tem tratamento e cura. O Ministério da Saúde repete que animal com suspeita não deve ser abandonado. O gato largado continua doente, só que agora brigando com outros gatos e longe de qualquer tratamento.
Quem procura o centro de controle de zoonoses com medo de que o gato seja morto pode ler o que diz a Lei 14.228/2021 no post sobre o que o centro de zoonoses pode fazer com um animal recolhido.
Se o gato morrer
Não enterre o corpo no quintal nem em terreno baldio, e não jogue no lixo. Isso mantém o fungo no solo, explica o Ministério da Saúde. A orientação é levar o corpo ao veterinário o quanto antes, para incineração. A diretriz de 2021 detalha o que o serviço faz: o corpo vai num saco branco com símbolo de risco biológico e fica refrigerado até a incineração. Se não conseguir esse encaminhamento, pergunte ao centro de zoonoses ou à vigilância em saúde do seu município como entregar o corpo.
O que o veterinário costuma investigar
O sinal sozinho não fecha o diagnóstico, por isso o exame é de laboratório. Este é o caminho descrito na diretriz de 2021:
- Exame de ferida no microscópio (citologia). É barato, rápido e muito usado em gato, porque a ferida felina tem muito fungo. A sensibilidade varia de 52,6% a 87% conforme o estudo, então resultado negativo não descarta a doença.
- Cultura do fungo. É o exame de referência e confirma o diagnóstico, mas o fungo cresce devagar: o resultado leva em média 30 dias.
- Biópsia, com sedação, quando a ferida pede.
- Sorologia (ELISA), disponível em laboratórios particulares, que procura anticorpo contra o fungo.
- Exames de sangue, para ver o estado geral antes e durante o tratamento.
- FIV e FeLV. A diretriz de 2021 registra cura com ou sem essas infecções, e a ABCD reforça a prevenção no gato que tem uma delas.
Quanto tempo dura o tratamento
O tratamento é longo, diário e definido pelo veterinário. Pela diretriz de 2021, o isolamento dura do começo ao fim, de algumas semanas a meses, com tempo mediano de 4 meses nos estudos que ela cita. O Merck registra que, com frequência, o gato precisa de mais de 12 meses. A cura é clínica, quando todos os sinais somem, e o remédio continua por pelo menos 1 mês depois disso, e por 2 meses no gato que tinha lesão no nariz ou sinais respiratórios.
Depois da cura, a diretriz recomenda castrar o gato. A castração reduz a vontade de sair, caçar e brigar, e com ela a chance de pegar de novo. O guia de castração explica como funciona o procedimento.
A eutanásia só entra quando o gato está em estado grave ou não responde ao tratamento, e a diretriz é explícita: a indicação é sempre do veterinário, depois de avaliação cuidadosa.
Perguntas frequentes
Esporotricose tem cura? Tem. Pela Fiocruz, a doença tem tratamento e cura, e a ABCD considera o prognóstico bom quando o tratamento vai até o fim. O prognóstico piora na forma disseminada e quando o tratamento é interrompido antes da hora. A Fiocruz avisa que alguns gatos voltam a ter a doença depois de curados, por isso o gato curado não deve ter acesso à rua.
É obrigatório notificar? O caso humano, sim. A Portaria GM/MS nº 6.734, de 18 de março de 2025, incluiu a esporotricose humana na Lista Nacional de Notificação Compulsória, com notificação semanal pelos serviços de saúde públicos e privados. Quem notifica é o serviço que atende a pessoa, não você. O caso no animal não está nessa lista nacional. A notificação animal depende de regra estadual ou municipal: no estado do Rio de Janeiro, a notificação compulsória existe desde 2013, segundo a Fiocruz, e em Salvador a de casos humanos e animais começou em 2018. Na dúvida, o centro de zoonoses do seu município informa como funciona aí.
Passa pela saliva ou pelo pelo? A principal forma de transmissão é o arranhão, responde a Fiocruz. Já a diretriz de 2021 acha improvável, mas não descartada, a ideia de que o gato saudável espalhe o fungo pelo pelo. O que pesa é a ferida, a unha e a mordida do gato doente.
Gata doente passa para os filhotes? Pela placenta, não há relato, segundo a Fiocruz. Mas o filhote recém-nascido que mama pode se infectar no contato direto com a mãe doente. A ninhada também precisa de avaliação.
Como evitar que o meu gato pegue? Gato dentro de casa é a medida que a ABCD e a diretriz brasileira recomendam, porque corta a briga com gato doente. A castração ajuda pelo mesmo motivo. Para manter o gato dentro de casa com segurança, o guia de tela na janela mostra como proteger janelas e varandas.
Fontes
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- BRASIL. Ministério da Saúde. Esporotricose humana: orientações para os donos de animais. Saúde de A a Z. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/e/esporotricose-humana/orientacoes-para-os-donos-de-animais. Acesso em 5 nov. 2026.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 6.734, de 18 de março de 2025. Inclui a esporotricose humana na Lista Nacional de Notificação Compulsória de Doenças, Agravos e Eventos de Saúde Pública. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2025/prt6734_31_03_2025.html. Acesso em 5 nov. 2026.
- FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (Fiocruz). Esporotricose. Página especial. Disponível em: https://fiocruz.br/esporotricose. Acesso em 5 nov. 2026.
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