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Gatos

Doença renal crônica em gatos: os sinais que aparecem cedo e o que é o estágio IRIS

A doença renal crônica é uma das mais diagnosticadas no gato mais velho e costuma passar anos sem sinal claro. Quando é emergência, o que aparece primeiro, o que anotar em casa e como o veterinário usa creatinina, SDMA e urina para dar o estágio IRIS.

Sintoma: o que pode serSaúdeAdulto
10 min de leitura
Gato branco e preto dormindo ao sol sobre as ripas de um banco de madeira verde
A partir dos 7 anos, exame de sangue e urina mesmo no gato que parece bem. Foto: Jules Verne Times Two, Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Resposta curta

A doença renal crônica é uma das doenças mais diagnosticadas no gato mais velho, e no começo quase não dá sinal. Os primeiros costumam ser beber mais água, fazer mais xixi e perder peso devagar, às vezes anos antes do diagnóstico. Por isso a diretriz da iCatCare de 2026 pede exame de sangue, urina e peso a partir dos 7 anos, mesmo no gato que parece bem. Gato que parou de comer, vomita e fica abatido, entra na caixa e não sai xixi ou ficou cego de repente é caso de veterinário no mesmo dia.

Quando é emergência

A doença renal crônica avança devagar, ao longo de meses ou anos. O que leva o gato ao veterinário no mesmo dia é a piora de repente, que a diretriz de 2026 da iCatCare, o ramo veterinário da International Cat Care, descreve como lesão aguda por cima da doença crônica. Leve logo se aparecer um destes sinais:

  • Parou de comer. No gato, falta de apetite não pode esperar, e o post sobre gato sem comer explica por quê.
  • Vômito, abatimento forte ou desidratação. No Merck, esses sinais entram no quadro da lesão aguda do rim, junto com feridas na boca, diarreia e menos xixi que o normal.
  • Vai à caixa toda hora e sai pouco ou nenhum xixi, às vezes com sangue e dor na barriga. É o quadro de obstrução urinária. O Merck avisa que o gato com bloqueio completo pode morrer em 2 a 3 dias sem tratamento, e que a urina parada também lesa o rim.
  • Ficou cego de repente ou passou a esbarrar nos móveis. Pela AAFP, a doença renal é a principal causa de pressão alta secundária no gato, e a iCatCare registra lesão no olho, como sangramento e descolamento de retina, em até 80% dos gatos com pressão alta.
  • Pode ter mordido lírio, ou lambido anticongelante. Pelo Merck, uma quantidade pequena de qualquer parte do lírio, incluindo o pólen e a água do vaso, pode causar lesão grave do rim no gato.

Se você não sabe onde há atendimento perto de casa, a página de serviços por cidade mostra veterinários na sua região.

O que pode ser

O rim que perde função aos poucos

Na maioria dos gatos, a causa de fundo fica sem nome. O exame do tecido mostra inflamação crônica e cicatriz entre os túbulos do rim, que o consenso de 2016 da ISFM, a International Society of Feline Medicine, descreve como a fase final de agressões ao rim que vão de toxinas e falta de oxigênio a infecções e obstruções. A doença é progressiva na maior parte dos casos. No resumo do Merck, o veterinário raramente consegue desfazer o dano que já existe. O tratamento serve para frear a piora e manter o gato bem.

A idade é o fator de risco mais constante. Segundo a iCatCare, a doença é rara no gato jovem, fica mais comum a partir dos 6 anos e, conforme o estudo, atinge de 28% a 81% dos gatos com mais de 12 anos. O consenso da ISFM falava em 30% a 40% acima dos 10 anos. Num estudo britânico citado pelas duas diretrizes, a doença renal foi a principal causa de morte dos gatos com 5 anos ou mais, com 13,6% das mortes e idade mediana de 15 anos.

Os sinais que aparecem cedo

A iCatCare descreve os sinais como de início insidioso e pouco específicos. Os mais relatados são três:

  • Beber mais água.
  • Fazer mais xixi. Os torrões da areia ficam maiores ou mais numerosos.
  • Perder peso. Num estudo com mais de 500 gatos, a perda mediana foi de 8,9% do peso nos 12 meses antes do diagnóstico, e o emagrecimento já estava presente 3 anos antes.

Depois vêm falta de apetite, vômito, apatia e fraqueza. A diretriz de cuidados com o gato idoso da AAFP, de 2021, acrescenta náusea, intestino preso, pelo feio e perda de músculo, e avisa que o tutor costuma deixar esses sinais passarem. Na fase avançada, a iCatCare cita mau hálito e feridas dolorosas na boca. Mais raro, o gato pode andar com o pescoço dobrado para baixo, sinal de potássio baixo.

O peso que cai devagar é o sinal mais fácil de perder. A iCatCare avisa que ele pode passar despercebido ou ser atribuído à idade, e que emagrecimento sem explicação não deve ser ignorado.

Um detalhe engana: o gato pode ter a doença sem sinal nenhum. Na Universidade de Ghent, na Bélgica, o exame de rotina achou doença renal em estágio 2 ou mais em 8% dos gatos mais velhos que pareciam saudáveis, 15% entre os idosos e 3% entre os adultos maduros. Dos que estavam bem no primeiro exame, 24% dos gatos com 11 anos ou mais e 8% dos que tinham de 7 a 10 anos passaram a ter alteração no exame de sangue em até 2 anos.

Outras doenças com os mesmos sinais

Beber e urinar mais não é exclusivo do rim. Pelo Merck, esses sinais também aparecem em outras doenças. O hipertireoidismo, a doença hormonal mais comum do gato, atinge a mesma faixa de idade e, segundo a iCatCare, de 15% a 51% dos gatos com hipertireoidismo também têm doença renal. As duas causam emagrecimento, vômito e sede, e uma pode esconder a outra no exame de sangue. Por isso o veterinário costuma dosar o hormônio da tireoide no gato mais velho.

O vômito também tem muitas causas além do rim, e o post sobre gato vomitando separa as mais comuns por idade.

O que observar em casa

A iCatCare dá ao tutor um papel no acompanhamento: apetite, xixi e hidratação são informação clínica. Anote:

  • O peso, todo mês. Com uma balança comum, pese você com o gato no colo e sem ele, e anote a diferença. Uma perda pequena só aparece quando há números para comparar.
  • A água. Se a tigela esvazia mais rápido, ou se você passou a encher mais vezes.
  • Os torrões de xixi. A iCatCare sugere areia que empedra justamente para ver o volume de urina.
  • As fezes. Fezes duras e secas, ou o gato fazendo cocô menos vezes, podem indicar desidratação ou potássio baixo, segundo a diretriz.
  • O apetite. Se come menos, se escolhe, se larga a comida no meio. Na doença renal, o apetite vai e volta.
  • Vômito, mau hálito e baba, com data.
  • O que ele tem ao alcance: lírio em casa ou no vaso do vizinho, remédio de gente na mesa de cabeceira. O Merck lista anti-inflamatórios e alguns antibióticos entre as causas de lesão do rim. Não dê nenhum remédio sem receita do veterinário.

Deixe água à vontade em mais de um ponto da casa. A IRIS, a International Renal Interest Society, pede água fresca sempre disponível já no estágio 1, porque o rim doente concentra menos a urina e o gato perde mais água.

O que o veterinário costuma investigar

Os exames

A ISFM lista o mínimo para investigar a suspeita: histórico, exame físico, exame de sangue completo, bioquímica com creatinina, ureia e minerais, exame de urina com densidade e relação proteína:creatinina, pressão arterial e ultrassom dos rins.

Três números concentram a conversa:

  • Creatinina no sangue. É o marcador mais usado. Tem limite: depende da massa muscular e da hidratação, varia de laboratório para laboratório e só sobe bem depois de o rim ter perdido boa parte da filtração. No gato mais velho, que perde músculo, a creatinina fica mais baixa, e a iCatCare sugere que o teto de referência seja ajustado para baixo nessa idade. A ISFM considera que um aumento persistente de mais de 15% em relação ao valor anterior do mesmo gato provavelmente indica perda de função.
  • SDMA no sangue. É um marcador mais recente, menos afetado pela massa muscular. Alguns estudos acharam o SDMA alterado até 17 meses antes da creatinina, mas pesquisas posteriores mostraram desempenho parecido entre os dois, segundo a iCatCare. O SDMA também sobe por outros motivos, como hipertireoidismo e linfoma. A AAFP considera sinal de disfunção renal o SDMA persistente acima de 14 µg/dL, e a iCatCare registra a proposta de um corte mais alto, de 18 µg/dL, para o gato mais velho.
  • Densidade da urina. Urina pouco concentrada, com densidade abaixo de 1,035, levanta a suspeita mesmo quando o sangue ainda está normal, e precisa ser repetida para confirmar.

Nenhum exame isolado fecha o diagnóstico. A AAFP pede que o veterinário junte creatinina, SDMA, densidade da urina, peso, massa muscular e hidratação. A doença precisa ser persistente: tanto a ISFM quanto a iCatCare usam o critério de pelo menos 3 meses, e a iCatCare diz que, no gato com sinais, a confirmação pode vir antes, com exame repetido em 2 semanas.

A tendência vale mais que um resultado solto. Por isso a ISFM recomenda dosar creatinina ou SDMA e a densidade da urina uma ou duas vezes por ano a partir dos 7 anos, e a iCatCare pede, de preferência, o mesmo laboratório entre um exame e outro.

O estágio IRIS

Com o diagnóstico confirmado, o veterinário dá o estágio da IRIS. O estadiamento usa a creatinina, o SDMA ou, de preferência, os dois, medidos em jejum em pelo menos duas ocasiões, com o gato hidratado e estável. Não se dá estágio durante uma crise, com o gato desidratado ou obstruído. Os cortes para gato, na versão de 2026:

O estágio IRIS

Estágio

Creatinina (mg/dL)

SDMA (µg/dL)

O que costuma acontecer

1

abaixo de 1,6

abaixo de 18

Sangue normal, mas há outra alteração do rim: urina pouco concentrada, rim alterado no ultrassom, proteína na urina ou creatinina subindo nos exames seriados.

2

1,6 a 2,8

18 a 25

Sinais leves ou ausentes.

3

2,9 a 5,0

26 a 38

Sinais fora do rim podem aparecer, com intensidade variável.

4

acima de 5,0

acima de 38

Risco crescente de sinais no corpo todo e de crise urêmica.

Quando creatinina e SDMA apontam estágios diferentes, a IRIS manda tratar pelo mais alto se o SDMA continuar acima do corte. Os valores de SDMA da tabela vêm de estudos feitos com o teste de um único laboratório comercial, e a própria IRIS diz que não se sabe se outros métodos dão resultado equivalente.

Depois do estágio vem o subestágio, por dois critérios. Proteína na urina, pela relação proteína:creatinina: abaixo de 0,2 o gato é não proteinúrico, de 0,2 a 0,4 é limítrofe e acima de 0,4 é proteinúrico. E pressão sistólica: abaixo de 140 mmHg é normal, de 140 a 159 é pré-hipertensão, de 160 a 179 é hipertensão e de 180 em diante é hipertensão grave. Os dois entram porque podem ser tratados e pesam na evolução.

No laudo, o resultado aparece junto, como no exemplo da própria IRIS: estágio 2, não proteinúrico, pré-hipertenso.

O que muda depois do estágio

O plano é do veterinário e muda de gato para gato. Duas coisas valem para quase todos.

Dieta renal, com prescrição. É a categoria de ração terapêutica feita para a doença, com menos fósforo e proteína moderada. A IRIS a inclui a partir do estágio 2, e a ISFM reúne estudos em que a sobrevida mediana dos gatos com dieta renal passou de 264 para 633 dias e de 210 para 480 dias, comparada à comida comum. Segundo a iCatCare, a troca deve ser lenta, ao longo de pelo menos 1 a 2 semanas, com a comida nova ao lado da antiga, e nunca durante uma internação ou uma fase de doença, porque o gato pode criar aversão. Se ele só aceita parte da ração renal, vale manter essa parte: dieta com 50% ou mais de ração renal já mostrou benefício na sobrevida. Ração renal não é para o gato saudável, como explica o post sobre o gato idoso.

Retornos frequentes. A iCatCare sugere reavaliar a cada 2 a 4 semanas logo depois do diagnóstico e, com a doença estável, a cada 3 a 6 meses, com pressão, sangue e urina. O Merck indica de 1 a 3 meses nos estágios 3 e 4.

Perguntas frequentes

Doença renal em gato tem cura? Não. O Merck diz que o veterinário raramente consegue tratar o dano que já existe, e a ISFM descreve a doença como progressiva na maioria dos gatos. O tratamento muda o rumo: a iCatCare escreve que muitos gatos tratados ficam estáveis e bem por anos.

Quanto tempo vive um gato com doença renal? Varia muito, e a iCatCare chama o prognóstico de imprevisível. O que mais pesa é a velocidade da piora: num estudo citado pela diretriz, a sobrevida mediana foi de 894 dias nos gatos com doença estável e de 287 dias nos gatos com doença em progressão. Quanto mais alto o estágio IRIS no diagnóstico, menor tende a ser a sobrevida.

Ração úmida previne doença renal? As diretrizes lidas aqui não tratam a úmida como prevenção. Elas a recomendam para o gato que já tem a doença, porque dá mais água, e a ISFM e a iCatCare falam disso no tratamento. Mesmo nesse caso, a iCatCare lembra que ela tem menos caloria por grama e que alguns gatos não conseguem manter o peso só com ela.

Meu gato bebe muita água. É o rim? Pode ser, e pode ser outra doença, como o hipertireoidismo. Beber e urinar mais é motivo de consulta com exame de sangue e urina, não de troca de ração por conta própria.

Gato vira-lata tem menos doença renal que gato de raça? Não achamos estudo que compare os dois. Existem formas herdadas, ligadas a algumas raças, mas o Merck afirma que a doença não herdada não parece mais comum em raças específicas nem em machos ou fêmeas. O risco que conta para o vira-lata é a idade.

Existe dado do Brasil? Não achamos estimativa brasileira de quantos gatos têm doença renal. Os números deste texto vêm sobretudo do Reino Unido, da Bélgica, da Suécia e dos Estados Unidos.

Fontes

  1. TAYLOR, S.; FINCH, N.; CANEY, S. et al. 2026 iCatCare consensus guidelines on the diagnosis and management of chronic kidney disease in cats. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 28, n. 9, 2026. DOI: 10.1177/1098612X261466553. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13554608/. Acesso em 5 nov. 2026.
  2. SPARKES, A. H.; CANEY, S.; CHALHOUB, S. et al. ISFM Consensus Guidelines on the Diagnosis and Management of Feline Chronic Kidney Disease. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 18, n. 3, p. 219-239, 2016. DOI: 10.1177/1098612X16631234. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11148907/. Acesso em 5 nov. 2026.
  3. INTERNATIONAL RENAL INTEREST SOCIETY (IRIS). IRIS Staging of CKD (modified 2026). 2026. Disponível em: https://www.iris-kidney.com/s/IRIS_staging_guidelines-2026.pdf. Acesso em 5 nov. 2026.
  4. INTERNATIONAL RENAL INTEREST SOCIETY (IRIS). Treatment Recommendations for CKD in Cats (2026). 2026. Disponível em: https://www.iris-kidney.com/s/IRIS_CAT_Treatment_Recommendations_-2026.pdf. Acesso em 5 nov. 2026.
  5. RAY, M.; CARNEY, H. C.; BOYNTON, B.; QUIMBY, J.; ROBERTSON, S.; ST DENIS, K.; TUZIO, H.; WRIGHT, B. 2021 AAFP Feline Senior Care Guidelines. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 23, n. 7, p. 613-638, 2021. DOI: 10.1177/1098612X211021538. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10812122/. Acesso em 5 nov. 2026.
  6. MERCK VETERINARY MANUAL. Noninfectious Diseases of the Urinary System of Cats. Versão para tutores, seções Chronic Kidney Disease and Kidney Failure, Acute Kidney Injury e Obstructions of the Urinary Tract. Disponível em: https://www.merckvetmanual.com/cat-owners/kidney-and-urinary-tract-disorders-of-cats/noninfectious-diseases-of-the-urinary-system-of-cats. Acesso em 5 nov. 2026.

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