
O gato é considerado idoso acima dos 10 anos, e a regra das diretrizes felinas é que velhice não é doença: mudança nova no gato idoso é motivo de consulta. Pular menos, dormir mais, fazer fora da caixa, beber mais água e emagrecer comendo bem costumam ter causa tratável, como artrose, doença renal, hipertireoidismo ou pressão alta. A AAFP recomenda consulta duas vezes por ano dos 10 aos 15 anos, a cada 4 meses depois dos 15 para o gato saudável, e pressão arterial medida em toda consulta. Cegueira de repente, com as pupilas dilatadas, é caso de veterinário no mesmo dia.
O que muda nesta fase
O gato é sênior acima dos 10 anos, pela diretriz de fases da vida felina da AAHA e da AAFP, de 2021. No mesmo ano, a diretriz de cuidados com o gato idoso da AAFP acrescentou que alguns gatos podem ser tratados como idosos já aos 8, e que "geriátrico" deixou de ser idade: virou descrição do estado de saúde. As quatro fases em vigor estão na ferramenta de idade e fase da vida. Ainda circula a tabela de 2010, com sênior dos 11 aos 14 anos e geriátrico a partir dos 15. Ela foi substituída.
Na frente do gato, a dúvida é outra: isso é velhice ou é doença? Veterinário responde com uma frase feita, que as diretrizes repetem: velhice não é doença, é um processo. Segundo a diretriz de cuidados com idosos da AAHA, de 2023, o tutor pode pensar o contrário e pôr na conta da idade um declínio físico, mental e de comportamento que tem causa. No gato, o engano é fácil, porque ele esconde doença.
Parte do que muda é mesmo da idade. Em gato idoso aparentemente saudável, a AAFP lista audição e olfato menores, sono e vigília em outro ritmo, menos tolerância ao estresse, pele menos elástica, cicatrização mais lenta, alterações no olho como a esclerose do cristalino e unhas quebradiças, que se recolhem menos.
A mesma figura traz a perda de massa muscular, e aí mora a armadilha. Essa perda, a sarcopenia, aparece como pular menos e interagir menos, que também são sinais de dor. E oscilação de peso ou de músculo sem explicação, diz o texto, se investiga e se trata como doença.
Ano a ano
A tabela junta as duas diretrizes felinas de 2021 e o consenso de pressão alta da ISFM, de 2017, que ainda chama de "sênior" o gato de 7 a 10 anos. Por isso aqui vale a idade, não o rótulo.
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Idade |
O que acontece |
O que fazer |
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7 a 10 anos |
Adulto maduro. A doença renal costuma começar aqui. A necessidade de energia cai até por volta dos 11 anos. |
Consulta pelo menos uma vez por ano e pressão medida pelo menos a cada 12 meses. |
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8 anos |
Alguns gatos já podem ser tratados como idosos. |
Perguntar ao veterinário se o seu é um deles. |
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Acima de 10 anos |
Começa a fase sênior. O hipertireoidismo atinge 10% dos gatos, e a pressão alta passa a ser mais reconhecida. |
Consulta a cada 6 meses, com pressão medida em toda consulta. |
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11 anos ou mais |
Miado excessivo, convívio alterado e sujeira fora da caixa são comuns no gato que envelhece. Em mais de 25% dos gatos dessa idade, essas mudanças ficam sem causa clínica reconhecida. |
Contar ao veterinário toda mudança de comportamento, até a que parece boa. |
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12 anos ou mais |
Artrose em até 74% dos gatos. A necessidade de energia volta a subir. |
Rampa ou degrau, caixa de areia de borda baixa, peso acompanhado. |
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Acima de 15 anos |
Segue sênior: a classificação de 2021 não criou fase nova depois dos 15. |
Consulta a cada 4 meses, se estiver saudável. |
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Com doença crônica |
Doença renal e hipertireoidismo elevam o risco de pressão alta. |
Consultas mais frequentes e pressão reavaliada pelo menos a cada 3 a 6 meses. |
Saúde
Acima dos 10 anos, a diretriz de cuidados com o idoso da AAFP dá seção própria a artrose, doença renal crônica, hipertireoidismo, diabetes, pressão alta, doença dentária, doença intestinal, câncer e disfunção cognitiva.
Pula menos e dorme mais: pode ser dor
Gato com dor raramente manca, e a tabela de sinais de dor da AAFP põe o mancar como raro. O que se vê em casa é o gato que pula menos, sobe em etapas usando a cadeira como degrau ou desce escorregando pela beirada do móvel para encurtar o salto. Ele troca o lugar de dormir e dorme mais, brinca menos, faz fora da caixa, recusa colo ou escova, às vezes num ponto só do corpo, e fica de unha comprida porque arranha menos.
Por trás disso, a causa mais comum é a artrose, ou doença articular degenerativa. Ela atinge até 74% dos gatos com 12 anos ou mais e, com frequência, fica sem diagnóstico e sem tratamento.
A diretriz de fases cita frases de tutor que o veterinário deve levar a sério, como "não sobe mais tanto na bancada" e "não gosta mais do lugar dele na janela", e pede atenção até às mudanças que parecem boas. O gato que "sossegou" pode estar com dor.
As unhas do idoso engrossam e tendem a encravar, e o gato com artrose sente dor demais para usar o arranhador. Cortar vira rotina. Se você não consegue, a clínica faz.
Não dê analgésico de gente. Pelo Merck Veterinary Manual, o gato é especialmente sensível ao paracetamol, muito sensível à aspirina e se intoxica com ibuprofeno com cerca de metade da dose que intoxica um cão. Parte dos casos vem de tutor bem-intencionado. A dor do gato idoso tem tratamento, e quem escolhe é o veterinário.
Bebe mais água e emagrece comendo bem
O hipertireoidismo atinge 10% dos gatos acima de 10 anos. Emagrecer com mais apetite, beber e urinar mais, miar mais, ficar agitado, vomitar, ter diarreia e descuidar do pelo estão entre os sinais, e alguns parecem vitalidade. Descoberto cedo, é tratável e até curável.
Comum no gato mais velho, a doença renal crônica costuma começar antes dos 10 anos, com sinais que escapam ao tutor: beber e urinar mais, comer menos, náusea, intestino preso, pelo feio, perda de peso e de músculo. Exame de sangue e urina de rotina pode pegar a doença no começo. O diabetes sem controle também dá sede, e mudança no uso da caixa pode ser sinal dele. Se a tigela de água esvazia mais rápido ou a caixa tem mais urina, anote.
Pressão alta: o sinal chega tarde
O risco cresce com a idade, e a pressão alta é reconhecida sobretudo a partir dos 10 anos. Sem tratamento, lesa olho, coração, cérebro e rim, às vezes sem volta. Daí o pedido da AAFP de medir a pressão em toda consulta nessa idade. É exame de consultório, não de casa.
Às vezes o primeiro sinal visível está no olho. Segundo o consenso da ISFM, muitos gatos com lesão ocular grave chegam cegos e com as duas pupilas dilatadas, por descolamento de retina ou sangramento dentro do olho, e a lesão com frequência é irreversível.
Boca e pele
Dor de dente costuma passar despercebida. Balançar a cabeça, passar a pata na boca, projetar a língua, babar e esfregar a cabeça no chão são sinais, mas o comum é o vago: muda um pouco o apetite, a atividade, o convívio. Doença periodontal e reabsorção dentária aumentam com a idade.
O risco de câncer também sobe, com sinais inespecíficos como comer menos, emagrecer e ficar apático. Caroço na pele pede exame assim que aparece, porque adiar o diagnóstico pode piorar o prognóstico. Uma vez por mês, apalpe o gato e anote lugar e tamanho de cada caroço, como sugere a AAFP.
O que muda na consulta
Para defender mais de uma consulta por ano, a AAFP faz uma conta. A vida do gato é cinco vezes mais curta que a humana, então o check-up anual de uma pessoa equivaleria a uma consulta a cada 10 ou 11 semanas. O próprio texto admite que isso não é prático.
A consulta começa em casa. Gato empurrado para a caixa de transporte ou balançado pela alça pode chegar com enjoo, pressão alta e outros sinais de estresse que atrapalham o exame físico e o de sangue.
Alimentação
Ficar abaixo do peso é problema comum no gato sênior, diz a diretriz de fases. A necessidade de energia volta a subir no idoso, e a conta está no guia de quanto alimentar.
Pese o gato: suba na balança com ele no colo e sem ele, e anote a diferença. Num gato pequeno, lembra a AAFP, uma variação mínima em quilos pode ser grande em proporção. A ferramenta de condição corporal mostra o que apalpar nas costelas e na cintura.
Proteína não se corta no idoso saudável. A diretriz de fases recomenda proteína moderada e cita estudo segundo o qual o gato que envelhece precisa de mais proteína para não perder músculo. Ração terapêutica renal, com menos proteína e menos fósforo, é para o gato com doença renal, com indicação do veterinário. Se houver troca, a comida nova entra num pote ao lado da antiga, sem tirar a de sempre, para ele mostrar a preferência.
No dia a dia, as diretrizes pedem:
- tigela baixa e larga, que não encoste no bigode, ou mais alta para o gato com artrose;
- comida morna ou de cheiro forte para quem come pouco;
- um canto tranquilo para comer, sem interrupção;
- água em mais de um ponto da casa e em recipientes diferentes, sobretudo com doença renal ou diabetes.
Vômito e bola de pelo não entram na conta do normal. A diretriz de fases pede que o veterinário pergunte a frequência justamente porque tanto tutor acha que entram.
Comportamento e rotina
Comportamento novo no gato idoso deve ser avaliado como possível doença, diz a diretriz de fases.
O miado de madrugada
Miar e acordar a casa à noite é queixa comum, e as causas vão da perda de audição ou de visão à disfunção cognitiva, à dor, ao hipertireoidismo e à pressão alta. Não dá para concluir em casa que é "caduquice".
A disfunção cognitiva existe. Em mais de 25% dos gatos com 11 anos ou mais, a mudança de comportamento fica sem causa clínica reconhecida. Os sinais listados são desorientação, convívio alterado, sono trocado, sujeira fora do lugar, mudança de atividade, ansiedade e perda de memória. Só que o diagnóstico é de exclusão, feito pelo veterinário depois de descartar causas médicas e do ambiente. Confirmado, a regra é não mudar comida, água e caixa de lugar.
Xixi fora da caixa
Pede investigação completa. Pela diretriz de fases, mudança no uso da caixa pode indicar doença urinária, intestino preso ou diabetes, e também perda de força, falta de equilíbrio ou dor. A diretriz de idosos soma doença renal, artrose, doença intestinal e disfunção cognitiva, e avisa que essas doenças se somam.
O que adaptar na casa
As duas diretrizes felinas pedem:
- degrau ou rampa até os lugares altos preferidos;
- caixa de areia de entrada baixa, fácil de alcançar;
- comida, água e caixa em mais pontos da casa, para ele andar menos;
- lugares quentes para descansar e luz noturna nos cantos escuros;
- ajuda para escovar o pelo.
As diretrizes que consultamos não dão a altura da borda em centímetros. O critério é ele entrar e sair sem esforço.
Para quem pensa em adotar: a diretriz de fases avisa que o gato idoso pode ter pouca paciência com filhote, e que a briga entre gatos da casa pesa mais nessa idade. Um filhote para "animar" o gato velho pode fazer o contrário.
Sinais para levar ao veterinário
Vá no mesmo dia se o gato:
- ficou cego de repente, esbarra nos móveis ou está com as duas pupilas dilatadas;
- engoliu ou recebeu analgésico de gente, como paracetamol, aspirina ou ibuprofeno.
Marque consulta, sem esperar a de rotina, se ele:
- bebe mais água ou urina mais;
- emagrece, mesmo comendo bem, ou come menos;
- pula menos, desce escorregando ou deixou de subir onde subia;
- faz xixi ou cocô fora da caixa;
- mia de madrugada ou parece perdido;
- descuidou do pelo ou tem unha grossa e encravada;
- tem caroço novo na pele;
- baba, passa a pata na boca ou esfrega a cabeça no chão;
- vomita ou põe bola de pelo com frequência;
- passou a fugir do colo ou do toque.
Se não souber onde há atendimento, a página de serviços por cidade mostra veterinários perto de você.
Perguntas frequentes
Quantos anos humanos tem um gato de 12? As diretrizes felinas de 2021 não trazem conversão, e não encontramos fórmula validada para gato. A conta da vida cinco vezes mais curta serve para pedir mais consultas, não para converter idade.
Gato idoso pode tomar anestesia para tratar os dentes? A AAFP diz que a idade, sozinha, nunca deve impedir o tratamento dentário, e dedica uma seção a anestesiar com segurança gatos bem idosos. Quem decide é o veterinário, depois de examinar o gato.
Gato velho precisa de ração com pouca proteína? Não, se for saudável. A restrição é para o gato com doença renal, com a dieta que o veterinário indicar.
É verdade que 92% dos gatos têm artrose? É artrose vista em radiografia, não sinal clínico, num estudo de 2010 com 100 gatos de 0 a 20 anos de uma clínica dos Estados Unidos. O achado útil dele: a gravidade sobe em média 13,6% por ano de vida. Para o idoso, o número seguro é o da AAFP, de até 74% aos 12 anos ou mais.
E que 80% dos gatos acima de 15 anos têm doença renal? O número circula a partir de um estudo de 2014 feito com gatos de uma única clínica americana, só de felinos, que contou também o estágio 1, aquele que ainda não altera a creatinina. Na faixa de 15 a 20 anos havia só 21 gatos, e foi ali que a doença apareceu mais. No grupo sorteado inteiro, de 86 gatos, metade teve a doença. O que se generaliza é a frase da AAFP: doença renal é comum no gato mais velho e começa cedo.
Existe dado do Brasil? Não encontramos. As diretrizes são americanas ou internacionais, as prevalências vêm de clínicas dos Estados Unidos e da Europa, e nenhum estudo brasileiro sobre essas doenças no gato idoso apareceu na busca.
Fontes
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