
A leishmaniose visceral é transmitida pela picada da fêmea do mosquito-palha, e o cão é o principal reservatório do parasita nas cidades brasileiras, segundo o Ministério da Saúde. Ela não passa de pessoa para pessoa. No cão, os sinais mais comuns são emagrecimento, lesões de pele no focinho e nas orelhas, unhas crescendo demais e apatia, mas parte dos cães infectados não mostra nada. Eutanásia não é mais o único caminho para o cão positivo: desde 2016 existe produto registrado no MAPA para tratar, por conta e responsabilidade do tutor, e o cão tratado continua usando coleira repelente.
A resposta
A leishmaniose visceral canina é uma doença causada por um protozoário, a Leishmania infantum, e transmitida pela picada da fêmea de um inseto pequeno, o flebotomíneo, conhecido como mosquito-palha, birigui, asa-dura ou tatuquira. O Ministério da Saúde diz que o cão é o principal reservatório do parasita em área urbana. O inseto pica um cão infectado e depois pica outro cão ou uma pessoa. Não existe transmissão de pessoa para pessoa.
Duas coisas mudaram e muita gente ainda não sabe. A eutanásia deixou de ser a única saída: desde 2016 há um produto de uso veterinário registrado no Ministério da Agricultura (MAPA) para tratar o cão, por escolha e conta do tutor. E a prevenção que o Ministério da Saúde distribui hoje é a coleira repelente nos municípios com mais casos, não a vacina.
Como o cão pega
O mosquito-palha é pequeno, cor de palha, e pousa com as asas levantadas e entreabertas. No Brasil, a espécie que mais transmite é a Lutzomyia longipalpis, que se adapta bem ao quintal, ao abrigo dos animais e ao interior da casa, segundo o Guia de Vigilância em Saúde de 2024.
Três detalhes do inseto explicam a prevenção:
- Ele pica no fim da tarde e à noite. O manual do Ministério da Saúde descreve a atividade como crepuscular e noturna.
- Ele não se cria em água parada, como o mosquito da dengue. A fêmea põe os ovos em solo úmido com muita matéria orgânica: folha caída, fruta podre, fezes de animal.
- Quem transmite é a fêmea, e só depois de se infectar picando um animal que tem o parasita.
Existe ainda transmissão sem inseto entre cães. As diretrizes do grupo europeu LeishVet, de 2011, citam como comprovadas a transfusão de sangue de doador infectado, a passagem da mãe para os filhotes e a via sexual. Por isso a Secretaria de Saúde do Paraná, em nota técnica de 2020, indica castrar o cão diagnosticado positivo, para evitar filhotes doentes e transmissão no cruzamento.
Entre a picada e os primeiros sinais, o tempo no cão varia de 3 meses a vários anos, com média de 3 a 7 meses, segundo o Guia de Vigilância em Saúde.
Os sinais no cão
A lista que o Ministério da Saúde usa para definir um caso suspeito de leishmaniose canina inclui:
- febre que vai e volta;
- apatia;
- emagrecimento;
- pele descamando, como caspa, e feridas, em geral no focinho, nas orelhas e nas patas;
- conjuntivite;
- fraqueza nas patas de trás;
- fezes com sangue;
- unhas crescendo demais.
As diretrizes LeishVet acrescentam o aumento dos gânglios pelo corpo, sangramento pelo nariz, perda de pelo ao redor dos olhos e manqueira. A pele é a manifestação mais frequente, e a descamação típica da doença não coça. Há também cão em que o rim é o único órgão atingido, e a doença renal crônica é a principal causa de morte por leishmaniose, segundo o mesmo grupo.
O ponto que confunde: infecção não é doença. Em área com transmissão, a LeishVet descreve alta prevalência de cães que carregam o parasita e não têm sinal nenhum no exame físico nem nos exames de rotina. É a infecção subclínica, e o grupo avisa que ela não é necessariamente permanente: outra doença ou queda de imunidade podem fazer o quadro aparecer depois. Para o Ministério da Saúde, esse cão sem sinais e com exame reagente também conta como infectado.
Nenhum desses sinais, sozinho, fecha diagnóstico. Emagrecimento, ferida na orelha e unha comprida têm outras causas. O que pesa é o conjunto, morar ou ter vindo de área com casos, e o exame. Se você vê dois ou mais desses sinais juntos, leve o cão ao veterinário e conte de onde ele veio. O mapa de serviços mostra clínicas perto de você.
Como é o teste
Na rede pública, o protocolo do Ministério da Saúde para cães usa dois exames de sangue em sequência. Primeiro um teste rápido de triagem, que pode ser feito em campo pelo município. Se ele der reagente, a confirmação é um ELISA, feito no laboratório central do estado ou na unidade de zoonoses. Só os dois juntos definem o cão como positivo nos inquéritos.
Se você discordar do resultado oficial, pode pedir contraprova. Ela é sorológica, feita por um laboratório da rede de referência, e o Guia estima em média 15 dias para o resultado. Laboratórios particulares, de universidade e de clínica que fazem esse diagnóstico devem participar do controle de qualidade do ministério.
Na clínica particular, o veterinário pode pedir outros exames. A LeishVet explica o que cada um mede:
|
Exame |
O que mostra |
Limite |
|---|---|---|
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Teste rápido |
Se há anticorpo, sim ou não |
Pode dar falso negativo; positivo precisa de exame quantitativo |
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ELISA ou imunofluorescência |
Quanto anticorpo há |
Varia entre laboratórios; nível baixo pede investigação |
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Citologia |
O parasita na amostra |
Baixa sensibilidade quando há poucos parasitas |
|
PCR |
O DNA do parasita |
Confirma infecção, não doença; não serve sozinho |
Positivo em cão sem sinal nenhum pede calma: a LeishVet recomenda repetir o teste no cão saudável com nível baixo de anticorpos antes de concluir.
Cão com leishmaniose: tratar ou eutanásia
Aqui a informação velha ainda circula muito.
Até 2016. A Portaria Interministerial nº 1.426, de 2008, proibiu em todo o país tratar a leishmaniose de cães com remédio de uso humano ou com produto sem registro no MAPA. Sem produto registrado para esse fim, a orientação oficial para o cão positivo ficava na eutanásia. O motivo declarado na portaria: risco de o cão tratado continuar transmitindo e de o uso de remédio humano selecionar parasitas resistentes ao tratamento das pessoas.
Desde 2016. A Nota Técnica nº 11/2016 do MAPA autorizou o registro de um produto de uso veterinário indicado para tratar a leishmaniose visceral de cães. O Guia de Vigilância em Saúde, na edição revisada de 2024, recomenda a eutanásia aos cães positivos "que não sejam submetidos ao tratamento", e diz que o medicamento precisa estar registrado no MAPA para esse fim e não pode ser de uso humano. A nota técnica do Paraná, de 2020, descreve a regra como ela funciona na ponta: o tutor pode optar pelo tratamento, arcando com o custo e a responsabilidade, e assina um termo se recusar a eutanásia.
O limite do tratamento precisa ficar claro. O Ministério da Saúde escreve que os remédios disponíveis não eliminam completamente o parasita, nem em pessoas nem em cães. No cão, os sinais podem sumir, mas ele continua podendo infectar o inseto. Por isso o Guia manda que o cão em tratamento use coleira impregnada com inseticida, para cortar o contato com o mosquito-palha. O tratamento pede acompanhamento e exames de controle, e quem define o esquema é o veterinário.
Usar remédio humano ou produto sem registro continua proibido. A portaria de 2008 segue valendo e prevê punição pelo Código de Ética do veterinário, pelo artigo 268 do Código Penal e pela lei de infrações sanitárias.
E quem decide a eutanásia? Pela Lei 14.228, de 2021, órgãos públicos não podem matar cães e gatos, salvo a eutanásia em doença grave ou infectocontagiosa incurável que ponha em risco a saúde humana e a de outros animais. O post sobre o que o centro de zoonoses pode fazer com um animal explica o alcance dessa exceção. Quando há eutanásia, ela é responsabilidade exclusiva do médico-veterinário, pela Resolução nº 1.000/2012 do Conselho Federal de Medicina Veterinária.
Prevenção: coleira, quintal e a vacina
A coleira repelente. Em 2021, uma nota técnica do Ministério da Saúde tratou da incorporação da coleira impregnada com inseticida ao programa de controle, com distribuição aos municípios com transmissão alta, intensa ou muito intensa. A decisão veio de um estudo financiado pelo próprio ministério: de 2012 a 2015, mais de 300 mil cães receberam coleira em 14 municípios, e a prevalência da doença em cães caiu 50% nas áreas com coleira, comparadas às áreas sem, junto com as demais ações do programa. As regras dessa coleira: só em cão, a partir de 3 meses de idade, troca a cada 6 meses. O inseticida leva em média 2 a 3 semanas para se espalhar pelo corpo do animal. Ela não pode ir em gato nem em outra espécie. Se você quer comparar com pipeta e comprimido, o post sobre antipulgas: pipeta, coleira ou comprimido mostra o que cada formato faz contra o mosquito-palha. Pergunte ao centro de zoonoses da sua cidade se ela participa da distribuição.
O quintal. O Ministério da Saúde lista:
- limpar o quintal com frequência e tirar folhas, frutos caídos, fezes de animais e entulho que deixam o solo úmido;
- dar destino certo ao lixo orgânico;
- limpar o abrigo dos animais;
- usar tela de malha fina em canil, portas e janelas;
- evitar ficar ao ar livre no fim da tarde e à noite em lugar onde o inseto aparece.
A vacina. O Guia de Vigilância em Saúde de 2024 diz que ainda não há estudos que avaliem a vacina contra leishmaniose canina como ferramenta de controle em saúde pública. Ela não aparece entre as medidas de controle que o Guia recomenda e não substitui a coleira. Se você pensa em vacinar, converse com o veterinário sobre o que está registrado e disponível no momento, e sobre o exame que precisa vir antes.
Se você vai adotar um cão
O Guia de Vigilância em Saúde inclui, entre as medidas dirigidas aos cães, o exame sorológico para leishmaniose antes da doação de animais. Na prática, vale perguntar à ONG ou ao abrigo se o cão foi testado, com que exame e quando, e de que cidade ele veio.
Cão positivo pode ser adotado, por quem escolher tratar com produto registrado. O compromisso muda: acompanhamento veterinário com exames de controle, coleira sem falha e castração, que a nota do Paraná indica para todo cão positivo. Exame negativo também não protege do futuro, e o Guia recomenda a coleira para o cão não reagente.
O passo a passo da adoção, com as perguntas para fazer à ONG, está no guia de como adotar um cão ou gato.
E nas pessoas
Na pessoa, a leishmaniose visceral, também chamada de calazar, causa febre que dura semanas, aumento do fígado e do baço, perda de peso, fraqueza e anemia. Sem tratamento, pode levar à morte em até 90% dos casos, segundo o Ministério da Saúde. O tratamento é gratuito no SUS. Crianças e idosos são os mais suscetíveis.
Pelo Ministério da Saúde, a pessoa pega pela picada do inseto infectado. O risco é o mosquito-palha picar o cão e depois picar alguém, e é isso que a coleira e o quintal limpo tentam cortar. Quem mora em área com casos e tem febre longa deve procurar a unidade de saúde e contar onde vive.
Não confunda com a leishmaniose tegumentar. Segundo o ministério, ela tem outra apresentação clínica, outras espécies de parasita, de inseto e de reservatório, e é controlada de outro jeito.
Perguntas frequentes
Leishmaniose canina tem cura? Não no sentido de eliminar o parasita. O Ministério da Saúde diz que os remédios disponíveis não eliminam completamente a Leishmania nem em pessoas nem em cães. O tratamento com produto registrado no MAPA pode fazer os sinais sumirem, com acompanhamento veterinário e coleira, porque o cão tratado ainda pode infectar o inseto.
O centro de zoonoses é obrigado a sacrificar meu cão positivo? Não. O Guia de Vigilância em Saúde recomenda a eutanásia para o cão positivo que não for tratado, e o tutor pode optar pelo tratamento com produto registrado, arcando com custo e responsabilidade. Regras locais variam, e vale pedir por escrito o que o município exige.
Meu cão nunca sai de casa. Pode pegar? Pode, se a sua cidade tem o inseto. O mosquito-palha vive no quintal e entra em casa, e pica à noite. Por isso a prevenção vale também para o cão que não passeia.
Gato pega leishmaniose? As fontes usadas neste texto tratam do cão como reservatório e não dão orientação para gatos. E a coleira do programa é proibida em gato. Se o seu gato tem feridas ou emagrece, o veterinário investiga.
O teste rápido positivo já é o diagnóstico? Não. No protocolo do Ministério da Saúde, o teste rápido é triagem e o ELISA confirma. Em clínica particular, o veterinário costuma pedir exame quantitativo e avaliar o cão inteiro antes de concluir.
Fontes
- Ministério da Saúde. Leishmaniose Visceral (Saúde de A a Z). Ministério da Saúde, consultado em 5 nov. 2026. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/l/leishmaniose-visceral
- Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, volume 2, capítulo Leishmaniose visceral. 6ª edição revisada. Ministério da Saúde, 2024. https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/vigilancia/guia-de-vigilancia-em-saude-volume-2-6a-edicao
- Ministério da Saúde. Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral. 1ª edição, 5ª reimpressão. Ministério da Saúde, 2014. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_vigilancia_controle_leishmaniose_visceral_1edicao.pdf
- Ministério da Saúde e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Portaria Interministerial nº 1.426, de 11 de julho de 2008. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2008/pri1426_11_07_2008.html
- Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 5/2021-CGZV/DEIDT/SVS/MS: incorporação das coleiras impregnadas com inseticida para o controle da leishmaniose visceral em municípios prioritários. Ministério da Saúde, 2021. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/l/leishmaniose-visceral/notas-tecnicas-e-informativas/nota-tecnica-no-5-2021-cgzv-deidt-svs-ms
- Secretaria de Estado da Saúde do Paraná. Nota Técnica nº 09/2020/DVDTV/CVIA/SESA: ações de vigilância e controle da leishmaniose visceral canina no Paraná (cita a Nota Técnica nº 11/2016/CPV/DFIP/SDA/GM/MAPA). SESA-PR, 2020. https://www.saude.pr.gov.br/sites/default/arquivos_restritos/files/documento/2022-03/nota_tecnica_lvc_09-2020.pdf
- Ministério da Saúde. Nota Informativa nº 24/2019-CGDT/DEVIT/SVS/MS: orientações para o plano de ação de vigilância e controle da leishmaniose visceral. Ministério da Saúde, 2019. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/l/leishmaniose-visceral/notas-tecnicas-e-informativas/5-nota-informativa-n-24-2019-cgdt-devit-svs-ms/view
- Solano-Gallego L, Miró G, Koutinas A, Cardoso L, Pennisi MG, Ferrer L, Bourdeau P, Oliva G, Baneth G. LeishVet guidelines for the practical management of canine leishmaniosis. Parasites & Vectors, 2011. https://doi.org/10.1186/1756-3305-4-86
- Brasil. Lei nº 14.228, de 20 de outubro de 2021. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14228.htm


