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Gatos

Grávida pode ter gato? O que a toxoplasmose tem a ver com ele

Pode, e o Ministério da Saúde diz que ninguém precisa se desfazer do gato na gravidez. A infecção vem mais da carne malpassada, da água e da verdura do que do animal de casa.

Saúde
10 min de leitura
Dois gatos, um preto e branco e um preto, deitados lado a lado no assento de um sofá claro
Conviver com o gato não causa toxoplasmose na gestante. Foto: MisterDesgraciao, Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Resposta curta

Pode. O Ministério da Saúde responde que a gestante não precisa desistir do gato e que o contato com o animal não causa toxoplasmose. No maior estudo europeu sobre a origem da infecção em grávidas, ter gato não foi fator de risco, e de 30% a 63% dos casos vieram de carne malcozida ou curada. No Brasil, os surtos também passam pela água e pela verdura. O gato entra pelas fezes, e a caixa limpa todo dia, por outra pessoa ou com luva, resolve a maior parte.

A resposta

Pode. No FAQ do Ministério da Saúde, a pergunta é se a grávida, ou quem planeja engravidar, tem de desistir do gato, e a resposta é "Não". Na mesma página, o ministério diz que o contato com gatos não causa a doença. O que pode infectar são as fezes do gato infectado, a água contaminada e o alimento mal lavado ou mal cozido. Na prática, quem está grávida ganha mais cuidando da cozinha e da água do que tirando o gato de casa.

De onde vem o parasita

A toxoplasmose é causada pelo Toxoplasma gondii, um protozoário. O gato e os outros felinos, como a onça e a jaguatirica, são os hospedeiros definitivos: só no intestino deles o parasita forma o oocisto, a forma que sai nas fezes e resiste no ambiente. Pelo protocolo de 2018 do Ministério da Saúde, o oocisto pode continuar infectante por mais de um ano no solo e na água doce ou salgada.

Daí o parasita passa para qualquer animal de sangue quente que engula água, terra ou planta contaminada. Boi, porco, carneiro e galinha guardam o parasita no músculo, em cistos que duram anos. A pessoa se infecta por três caminhos principais: comendo carne crua ou malpassada com cisto, engolindo oocisto que estava na água, na terra ou na verdura, ou, no caso do bebê, pela placenta.

A maioria dos adultos infectados não sente nada ou tem algo parecido com uma gripe. O risco grave está na gestante que se infecta pela primeira vez durante a gravidez ou pouco antes dela, porque o parasita pode passar ao feto. Pelo protocolo do ministério, cerca de 85% dos recém-nascidos com toxoplasmose congênita não mostram sinal claro ao nascer, e as sequelas, principalmente nos olhos, podem aparecer anos depois.

O que os estudos dizem sobre a origem da infecção

O estudo mais citado sobre isso foi publicado em 2000 no BMJ. Pesquisadores acompanharam gestantes em seis cidades europeias (Nápoles, Lausanne, Copenhague, Oslo, Bruxelas e Milão): 252 mulheres com infecção recente e 858 grávidas sem a infecção, para comparação. O resultado:

  • De 30% a 63% das infecções, conforme a cidade, foram atribuídas a carne malcozida ou curada.
  • De 6% a 17% foram atribuídas ao contato com a terra.
  • O contato com gato não foi fator de risco. Não houve associação entre a infecção e ter gato adulto ou filhote, nem com o que o gato comia, se caçava ou com limpar a caixa dele.

Os autores explicam o porquê. O gato elimina oocistos só por cerca de duas semanas na vida, logo depois de se infectar pela primeira vez, e o oocisto se espalha pela terra e pela água da superfície. Por isso a terra e a água pesam mais que o contato direto com o gato.

O protocolo do Ministério da Saúde vai na mesma linha e escreve que a principal causa da infecção em humanos é a carne contaminada sem cozimento adequado. A diretriz do ABCD, um conselho europeu de veterinários especialistas em doenças de gatos, resume do mesmo jeito: acariciar o gato não transmite, e mesmo no período em que ele elimina oocistos nas fezes eles não foram encontrados no pelo. Mordida e arranhão também não transmitem. O ABCD tem patrocínio de fabricantes de medicamento veterinário; o que citamos dele se apoia em estudos publicados, como o do BMJ.

No Brasil, a água e a verdura entram na conta

O estudo europeu é sobre a Europa. O protocolo do ministério registra que o Brasil tem incidências de toxoplasmose entre as mais altas da literatura. No Rio Grande do Sul, um estudo de 2003 achou 8 casos de toxoplasmose congênita para cada 10 mil nascidos vivos. O Merck Veterinary Manual acrescenta que os genótipos do parasita encontrados na América do Sul são considerados mais virulentos que os que predominam na Europa e na América do Norte.

Os surtos mostram o lado brasileiro. Uma revisão de 2019 reuniu 34 surtos publicados no mundo entre 1967 e março de 2018: 12 deles, ou 35,3%, foram no Brasil. Os 15 surtos ligados ao oocisto (água, terra, areia, verdura) afetaram cerca de 1.416 pessoas, contra cerca de 290 nos 16 surtos ligados à carne. Desde 2010, os surtos ligados a verdura crua passaram a aparecer mais.

O maior foi o de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 2018. Pela revisão de 2021 de J. P. Dubey, foram 2.270 casos suspeitos e 931 confirmados, entre eles 146 gestantes, 3 mortes fetais, 10 abortos e 29 casos de toxoplasmose congênita, em 39 dos 41 bairros da cidade. A distribuição dos casos apontava para a água, e um estudo publicado em 2021 testou isso: leitões que beberam por 21 dias a água sob suspeita, que era tratada, se infectaram todos, sinal de oocisto viável nela.

Em Santa Isabel do Ivaí, no Paraná, o surto de 2001 e 2002 veio de uma cisterna mal vedada, cuja água não passava por filtro nem cloração. Uma gata tinha dado cria perto dali, e os três filhotes viviam em cima da cisterna. Um deles foi capturado e tinha anticorpos, e o parasita vivo foi isolado da água.

Um modelo de risco publicado em 2023 para as cinco regiões do Brasil estimou mais infecções por oocisto em fruta e verdura do que por cisto na carne. Os próprios autores mostram que as margens de incerteza dessas estimativas são muito largas, então o modelo indica direção, não tamanho.

Os dois retratos se completam. A carne malpassada pesa no dia a dia, como mostram o protocolo do ministério e o estudo europeu; a água e a verdura aparecem com força nos surtos brasileiros. O gato está na origem do oocisto, e nessas histórias ele aparece defecando na terra, perto da cisterna ou da horta. O gato que vive dentro de casa e come ração fica fora desse caminho.

Onde o gato de casa entra de verdade

O gato se infecta comendo roedor, ave ou carne crua com o parasita, segundo o ministério e o CDC, o órgão de saúde pública dos Estados Unidos. Pelo Merck, os oocistos aparecem nas fezes 3 dias depois da infecção e saem por até 20 dias. Depois, o gato costuma ficar imune e, em geral, elimina oocistos uma vez na vida. O Ministério da Saúde diz que o gato, principalmente o filhote, pode eliminar milhões de parasitas por até 3 semanas, e o CDC diz que o gato adulto que já se infectou tem menos chance de eliminar de novo.

Na Europa, menos de 1% das amostras de fezes de gato analisadas tinha oocisto, segundo a tabela do ABCD; num estudo suíço, foi 1 gato em 250. Não achamos levantamento brasileiro equivalente.

O detalhe que muda a rotina é o relógio. O oocisto sai das fezes ainda sem poder infectar e leva de 1 a 5 dias para ficar infectante, conforme a temperatura e o ar, dizem o CDC e o Merck. Fezes retiradas todo dia saem da casa antes disso. É por isso que a caixa limpa diariamente aparece em todas as fontes, e é por isso que o tipo de areia não muda o risco, como o post sobre areia para gato mostra.

Testar o gato? O Ministério da Saúde diz que não é necessário, porque a eliminação nas fezes acaba sozinha. O ABCD acrescenta que gato com anticorpo é um gato que já passou pela fase de eliminar e dificilmente volta a ela. Se a dúvida persistir, é conversa para o veterinário.

O que muda na casa durante a gravidez

Quase tudo o que as fontes pedem é cozinha e água. A parte do gato cabe em três linhas da tabela.

O que muda na casa durante a gravidez

Medida

Por quê

Fonte

Carne bem passada: corte inteiro a 65,6 °C com 3 minutos de descanso, carne moída a 71,1 °C, ave a 73,9 °C

Calor mata o cisto da carne

Ministério da Saúde

Não provar a carne crua enquanto tempera nem comer embutido cru curado

É a mesma via, sem o cozimento

Ministério da Saúde, Merck

Não contar com o micro-ondas para matar o parasita

O cozimento nele não é confiável

Ministério da Saúde

Lavar fruta, legume e verdura com água tratada, escovando, antes até de descascar

O oocisto pode estar na superfície

Ministério da Saúde

Lavar tábua, faca e bancada depois da carne crua e da verdura sem lavar

Evita passar o parasita para outro alimento

Ministério da Saúde, CDC

Beber água tratada; sem garantia, filtrar ou ferver por 5 minutos

O oocisto resiste na água

Ministério da Saúde

Caixa d'água limpa e bem tampada

Gato não pode ter acesso a ela

Ministério da Saúde

Luva na jardinagem e mãos lavadas depois

A terra pode ter fezes de gato

CDC, Ministério da Saúde

Não beber leite cru nem comer queijo de leite cru; frutos do mar bem cozidos

Outras vias registradas

Ministério da Saúde, CDC

Caixa de areia limpa todo dia, de preferência por outra pessoa; se não houver, com luva descartável e mãos lavadas com sabão depois

O oocisto precisa de 1 a 5 dias para ficar infectante

Ministério da Saúde, CDC, Merck

Gato comendo ração ou comida bem cozida, nunca carne crua

É assim que ele não se infecta

Ministério da Saúde, CDC

Tanque de areia de criança coberto quando não está em uso

Gatos usam como banheiro

Ministério da Saúde, CDC

O ministério ainda sugere, quando possível, máscara na troca da areia e na jardinagem. Sobre carne crua na tigela do gato, o guia de comida caseira, dieta crua e petisco explica o que a diretriz parasitológica europeia diz e por que congelar não resolve tudo.

O exame do pré-natal

O Ministério da Saúde recomenda a sorologia para toxoplasmose na primeira consulta do pré-natal ou no primeiro trimestre. O ideal, segundo o mesmo protocolo, é saber o resultado antes de engravidar. O exame procura anticorpos no sangue, e a interpretação é com a equipe do pré-natal, que pode pedir outros exames para saber se a infecção é antiga ou recente.

Quem não tem anticorpo é chamada de suscetível: nunca se infectou e pode se infectar na gravidez. Para ela, a conduta do quadro do ministério é uma só, as ações de prevenção da tabela acima. O protocolo também lembra que reinfecção existe, ainda que pareça rara, e por isso estende as mesmas medidas a todas as gestantes, mesmo às que já tinham anticorpo antes. O acompanhamento, quando necessário, é decidido pela equipe de saúde e é gratuito no SUS.

Se você está pensando em adotar

Nenhuma das fontes que lemos pede que a gestante se desfaça do gato, e o ministério responde que sim à pergunta "quem teve toxoplasmose pode ter gato?", acrescentando "inclusive quem não teve". Dar o gato não tira da casa as vias que mais pesam: a carne, a água e a verdura continuam no mesmo lugar.

Para quem vai adotar durante a gravidez ou com bebê a caminho, três dados das fontes ajudam a planejar. O filhote é quem mais elimina oocistos, segundo o ministério e o ABCD. O adulto que já se infectou tende a não eliminar de novo, segundo o CDC e o Merck. E o gato que vive dentro de casa e come ração não tem como pegar o parasita de presa. Nos primeiros meses com o animal novo, combine na casa quem limpa a caixa. Ao procurar um animal no diretório de adoção, vale perguntar à ONG se ele vivia na rua e o que comia.

Perguntas frequentes

Posso fazer carinho no gato e deixar que ele durma comigo?

Pode. O ABCD lista que acariciar o gato não espalha a infecção e que nem no período de eliminação os oocistos foram achados no pelo. Lavar as mãos antes de comer continua valendo, para gato e para qualquer outra coisa da casa.

Meu gato sai para a rua e caça. Muda alguma coisa?

Muda a chance de ele se infectar, porque roedor e ave são a via dele. A diretriz do ABCD sugere manter dentro de casa, durante a gravidez da tutora, o gato que caça e nunca teve contato com o parasita. A caixa limpa todo dia e a luva na terra do quintal passam a pesar mais.

Se eu já tive toxoplasmose, estou livre?

O quadro do ministério chama o anticorpo antigo, sem sinal de infecção recente, de imunidade remota. O mesmo protocolo registra que a reinfecção parece incomum, mas acontece, e pede que todas as gestantes sigam a prevenção. Quem interpreta o seu exame é a equipe do pré-natal.

Gato tem toxoplasmose o tempo todo?

Não. O Ministério da Saúde explica que o gato só elimina o parasita nas fezes por algumas semanas depois de se infectar e que isso para sozinho. Pelo Merck, em geral acontece uma vez na vida.

Fontes

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  2. Brasil. Ministério da Saúde. Toxoplasmose: perguntas frequentes. Consultado em novembro de 2026. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/t/toxoplasmose/faq
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  5. Brasil. Ministério da Saúde. Toxoplasmose: meio ambiente. Consultado em novembro de 2026. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/t/toxoplasmose/meio-ambiente
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  9. Centers for Disease Control and Prevention. Preventing Toxoplasmosis. CDC, consultado em novembro de 2026. https://www.cdc.gov/toxoplasmosis/prevention/index.html
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  16. Zhu S, VanWormer E, Martínez-López B, Bahia-Oliveira LMG, DaMatta RA, Rodrigues PS, Shapiro K. Quantitative risk assessment of oocyst versus bradyzoite foodborne transmission of Toxoplasma gondii in Brazil. Pathogens, 2023. https://doi.org/10.3390/pathogens12070870

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